quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Manuel Bandeira e as mensagens do além

            A Doutrina Espírita é um manancial inesgotável donde a humanidade pode sorver ideias e temas, proporcionando aos seres uma fonte riquíssima para seu aprimoramento pessoal e para sua expressão livre. Sua máxima beleza se manifesta no fato de estar à disposição de todos, independentemente de orientação filosófico-religiosa. É o que constantemente me vem ao pensamento quando encontro os conceitos espíritas disseminados em meios que não possuem nenhuma ligação aparente com a Doutrina como, por exemplo, o universo literário.
Foi o que me aconteceu recentemente ao ler uma carta de Manuel Bandeira (1886-1968) ao amigo Odylo Costa, Filho¹. A carta (sem data) foi publicada no número 8 da revista Poesia Sempre² e serviu de elemento motivador para a presente análise. Primeiro vamos nos deter no trecho inicial da referida carta:
Odylo querido
A Yeda³, viúva do Schmidt4, tem se revelado melhor administradora do que o Schmidt. Há dias ela quis tirar umas dúvidas sobre os negócios do espólio e lembrou-se de evocar o espírito do falecido numa sessão espírita. Mas quem se apresentou não foi o Schmidt, mas sim o Ovalle5, que disse, entre outras coisas, essas palavras “Aqui estamos todos nus”, e tanto a Yeda como o Dante Milano6 reconheceram essa coisa autêntica do Ovalle. Dante tentou fazer um poema sobre, mas não conseguiu. Então eu pus mãos à obra e saíram as quadrinhas supra. (1997: 328-9)
A simples referência feita por um dos maiores nomes da poesia brasileira à realização de uma sessão espírita tendo envolvidos os nomes de outras não menos relevantes personalidades artísticas e intelectuais (ver notas) já seria motivo suficiente para que o pesquisador espírita se sentisse tentado a compreender os detalhes desta reunião.
Não será este o foco do presente texto, pois não me vejo detentor de condições intelectuais para proceder a uma pesquisa histórica de tal vulto. Prefiro voltar minha atenção para as “quadrinhas” mencionadas por Bandeira. Trata-se, na verdade, do poema “Mensagem do Além”. O poema apresenta como epígrafe a frase atribuída ao espírito Jaime Ovalle que também serve como último verso de cada quadra.
Aqui é tudo o que olhamos
Nu como o céu, como a cruz,
Como a folha e a flor nos ramos:
Aqui estamos todos nus.

As vestes que aí usamos
Nada adiantam. Se o supus,
Se o supões, nos enganamos:
Aqui estamos todos nus.

Dinheiro que aí juntamos,
Jóias que pões (e eu já as pus),
De tudo nos despojamos:
Aqui estamos todos nus.

Aqui insontes nos tornamos
Como antes do pecado os
De quem todos derivamos,
Aqui estamos todos nus.

Aos pés de Deus, que adoramos
Sob a sempiterna luz,
É nus que nos prosternamos:
Aqui estamos todos nus.
            Este belíssimo poema começa com um panorama do mundo espiritual que nos remete diretamente aos relatos obtidos via mediúnica e que dão conta da simplicidade com que as coisas se apresentam no mundo espiritual. Lembrando a série de livros do espírito André Luiz, pela psicografia de Chico Xavier, encontramos em várias passagens a alusão à eliminação do supérfluo, com objetos, móveis e construções atendendo sempre ao bom gosto e praticidade.
            Na segunda estrofe vemos toda a inteligência e sensibilidade do poeta ao substituir aparência por vestes, em uma clara referência à diferença existente entre o mundo material onde somos capazes de disfarçar nosso íntimo perante os homens e a verdadeira essência revelada no pós-morte. Nisto o poeta estabelece ainda um diálogo com outro genial autor de nossa língua: Machado de Assis, que em Memórias Póstumas de Brás Cubas põe nos lábios de seu defunto-autor uma pérola de sabedoria. A passagem é longa, mas vale à pena ser lida:
Talvez espante ao leitor a franqueza com que lhe exponho e realço a minha mediocridade; advirta que a franqueza é a primeira virtude de um defunto. Na vida, o olhar da opinião, o contraste dos interesses, a luta das cobiças obrigam a gente a calar os trapos velhos, a disfarçar os rasgões e os remendos, a não estender ao mundo as revelações que faz à consciência; e o melhor da obrigação é quando, a força de embaçar os outros, embaça-se um homem a si mesmo, porque em tal caso poupa-se o vexame, que é uma sensação penosa e a hipocrisia, que é um vício hediondo. Mas, na morte, que diferença! que desabafo! que liberdade! Como a gente pode sacudir fora a capa, deitar ao fosso as lentejoulas, despregar-se, despintar-se, desafeitar-se, confessar lisamente o que foi e o que deixou de ser! (2008 [1881]: 657-8)
Que sensibilidade e semelhança a desses dois trechos separados por quase um século de história, demonstrando a inutilidade das máscaras sociais que todos nós utilizamos; e que identidade perfeita com o conhecimento espírita.
A terceira estrofe traz-nos à lembrança o Cap. XVI, item 14, de O Evangelho Segundo o Espiritismo, onde o espírito Lacordaire tece importantes considerações a respeito do desprendimento dos bens terrenos. Particularmente encontro no poema de Bandeira um eco destas palavras:
Em vão procurais na Terra iludir-vos, colorindo com o nome de virtude o que as mais das vezes não passa de egoísmo. Em vão chamais economia e previdência ao que apenas é cupidez e avareza, ou generosidade ao que não é senão prodigalidade em proveito vosso. (2006[1864]: 300-1)
Prosseguindo em suas considerações, o eu lírico aponta para a inocência (Aqui insontes nos tornamos) do espírito após a morte do corpo físico. Embora possa ser lido com uma alusão ao mito adâmico (Como antes do pecado os / De quem todos derivamos) não deixa de ser interessante notar que ao compulsarmos a Codificação encontramos a afirmação de que somos criados simples e ignorantes (L.E. – perg. 115), portanto sem pecado. Não somos descendentes de Adão e Eva, mas de nós mesmos, de nossas escolhas.
A última estrofe nos traz um belo resumo do que encontramos no Livro III, Capítulo II de O livro dos espíritos, o qual trata da Lei de Adoração. Se nos detivermos nas perguntas 653 e 653-a, veremos que ali o Espírito Verdade assevera que “A verdadeira adoração é a de coração” e que toda manifestação deste sentimento inato ao ser humano é válida e útil “se não for um vão simulacro”, i.e., um fingimento, um ato puramente exterior. O eu lírico do poema de Bandeira afirma que “É nus que nos prosternamos”, afirmando a sinceridade deste ato de submissão ao Criador, em perfeita sintonia com a Doutrina Espírita.
Propositalmente deixei por último o verso que motivou o poema de Bandeira e o presente texto: “Aqui estamos todos nus”.
Para não alongar por demais um texto que corre o risco de tornar-se enfadonho, limito minhas elucubrações a um cotejo da frase em questão com algumas passagens do livro Nosso Lar, cuja primeira edição veio à lume em 1944.
No capítulo 14 (“Elucidações de Clarêncio”), a palavra do ministro expõe o íntimo do espírito André Luiz de forma clara e direta: “Já sei. Verbalmente pede qualquer gênero de tarefa; mas, no fundo, sente falta dos seus clientes, do seu gabinete, da paisagem de serviço com que o Senhor honrou sua personalidade na Terra.” (1996: 81) [grifos meus].
Como se vê, a nudez do espírito após o desencarne é aqui exposta pela observação de um terceiro que, pleno de autoridade moral e espírito de caridade, elucida os impulsos interiores que nos acostumamos a hipocritamente mascarar durante a experiência no corpo físico.
Em vários outros capítulos a nudez do ser é posta em evidência como, por exemplo, no de número 31 (“Vampiro”), que tem sido apontado como um dos mais chocantes pela maneira como é elucidada a real condição do espírito que envereda pelos caminhos do aborto criminoso e que em vão busca ocultar-se sob a capa da virtude.
A nudez do espírito atinge seu grau máximo quando este olha dentro de si mesmo e reconhece suas falhas, como acontece no capítulo 33, onde André Luiz analisa que “examinando desapaixonadamente minha situação de esposo e pai, reconhecia que nada criara de sólido e útil no espírito de meus familiares.” (1996: 181), ou quando ao encontrar-se com aqueles a quem prejudicara em sua última passagem na terra, mostra-se incapaz de fugir à lembrança de seus erros e busca o perdão dos que lhe sofreram os atos cegos, seja pela sincera exposição verbal (Cap. 35 – “Encontro singular”), seja pela doação abnegada no trabalho em favor destes (Cap. 40 – “Quem semeia colherá”).
Estar a nu perante a eternidade é um dos meios pelos quais a alma evolui moralmente, como se nota na postura de André diante do segundo esposo daquela a quem deixara viúva como conseqüência de seus abusos: “De pronto, tive ímpetos de odiar o intruso com todas as forças,[...]”, imagem forte por nos remeter ao lugar comum no qual todos nos achamos mergulhados; imagem igualmente bela por representar a sinceridade do narrador ao revelar seu impulso; imagem sublime quando vemos sua continuidade “[...] mas já não era eu o mesmo homem de outros tempos. O Senhor me havia chamado aos ensinamentos do amor, da fraternidade e do perdão.” (1996: 272). A nudez do espírito é dos caminhos para sua evolução.
Simplicidade, adoração, humildade, evolução, fé. Elementos que se encontram no íntimo do ser e que necessitam de que este se despoje de vícios, máscaras e comportamentos viciosos para que surjam em sua plenitude. O poema de Manuel Bandeira nos mostra que os conceitos espíritas já fazem parte da cultura humana, bastando apenas que sejam realmente compreendidos e vivenciados de modo que o espírito imortal, desencarnado ou encarnado, tenha a postura de nudez que o levará no caminho da evolução.

NOTAS
1 - Odylo Costa, Filho (1914-79) – Jornalista, cronista, novelista e poeta brasileiro. Foi membro da Academia Brasileira de Letras.
2 - Yedda Ovalle Lemos – Esposa de Augusto Frederico Schmidt; sobrinha de Jayme Ovalle. Consta que era dotada de forte sexto sentido que a levava a intuir o caráter das pessoas e que estudou budismo e praticou yoga. Nota: na carta de Bandeira seu nome aparece grafado incorretamente com apenas um “d”.
3 - Augusto Frederico Schmidt (1906-65) – Poeta, político e homem de negócios, ficou conhecido como o “gordinho sinistro” da literatura Brasileira.
4 - Jaime Ovalle (1894-1955) – Compositor e poeta brasileiro.
5 - Dante Milano (1899-1991) – Poeta e tradutor.

BIBLIOGRAFIA
ASSIS, Machado de. Obra Completa em quatro volumes. Vol. 1. 2ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2008, 657-8.
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. 20ª Ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1993, p.245-6.
FUNDAÇÃO BIBLIOTECA NACIONAL. Poesia Sempre. Rio de Janeiro: FBN, 8, jun. 1997.
KARDEC, Allan. O livro dos espíritos (Le livre des esprits). Edição Especial. Trad. de Evandro Noleto Bezerra. Rio de Janeiro: FEB, 2006.
XAVIER, Francisco Cândido. Nosso Lar. Pelo espírito André Luiz. 45ª Ed. Rio de Janeiro: FEB, 1996.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Biografia


Glaucio Varella Cardoso nasceu em 11 de novembro de 1976, natural de Mesquita, município da Baixada Fluminense, Rio de Janeiro, onde fez seus primeiros estudos e começou a trabalhar muito cedo.
Bacharelou-se em Letras, na habilitação Língua Portuguesa - Literatura Brasileira, pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) em 2005.
Pela mesma instituição conquistou o grau de Mestre em Literatura Brasileira em 2009, apresentando a dissertação “Poesia Lida: Poesia Falada (Poesia, Performance e Recepção: Aspectos Teóricos e Práticos)”, sob a orientação do Prof. Dr. Ítalo Moriconi.
É ator teatral desde 1988, sendo atualmente o diretor geral da Cia. Leopoldo Machado de Arte Espírita (Cialemarte) na qual já escreveu e dirigiu diversas peças teatrais atuando também como ator nas mesmas.
É performer de poesia, sempre buscando novas maneiras de dizer versos alheios e eventualmente os próprios.
Membro da Associação Brasileira de Artistas Espíritas (Abrarte), na qual tem colaborado inclusive como organizador do periódico “Cadernos de Arte”.
Em 2001 conquistou o Prêmio Deolindo Amorim, concedido pelo Instituto de Cultura Espírita do Brasil (ICEB), ao participar do 1º Concurso de Monografias Espíritas das Mocidades Espíritas do Brasil, com o ensaio “Em defesa de um Teatro Espírita”.
Em 2011 publicou seu primeiro livro de poesias, Enquanto Clara dormia, com prefácio de João Prado.
Em 2012 publicou Sopros e outros poemas, com prefácio de Merlânio Maia.
Em 2013 publicou Em defesa de um teatro espírita, versão revista do trabalho de 2001 e com apresentação de Cezar Said.
Já publicou artigos e poemas em periódicos e antologias (em breve disponibilizaremos estes textos).
Ator, professor, poeta, ensaísta, dramaturgo. Se ele pudesse se definir em uma única palavra, esta seria “inquieto”.
Veja o currículo completo de Glaucio na plataforma Lattes clicando AQUI.

Publicações


LIVROS PRÓPRIOS







PARTICIPAÇÃO EM ANTOLOGIAS

ARTIGOS EM PERIÓDICOS
       

 
PREFÁCIOS
                    

                         



Enquanto Clara dormia

            Primeiro livro de Glaucio Cardoso, traz uma seleção de poemas escritos em diversas épocas. São textos livres, nos quais o autor não se prende por rótulos ou preconceitos. Com prefácio de João Prado e capa sobre foto de Luise Cardoso. São poemas em que o experimental dialoga com a tradição em busca de uma voz poética própria ainda em construção.

Poemas:
Ame Arte
Apenas um toque
Em maio
Inspiração
O Casal
Um voo


Editora: Virtual Books
ISBN: 978-85-7953-339-6

Veja as fotos do lançamento CLICANDO AQUI

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um Manifesto da Poesia Espírita

            Louvaremos em nossos versos à Causa Primária de todas as coisas sem constrangimento por dizer-Lhe o nome. Também não demonstraremos temor diante do que é Amor, Justiça, Misericórdia e Bondade em sua essência e infinitude. Todas as nossas formas de escrita serão para Ele e por Ele.
Queremos cantar a vida em suas múltiplas manifestações. A existência que se desdobra em incontáveis encarnações. A felicidade da reparação de atos e atitudes, de renovação de posturas e de saberes.
Queremos estreitar o contato entre os mundos material e espiritual, seja apontando-lhe a existência no que escrevemos, seja retratando suas belezas, seja tendo a parceria dos poetas já libertos da ilusão da matéria.
            Sem estar com os olhos fechados para as agruras e desigualdades do mundo, não nos deixaremos contaminar por eles no sentido de não aceitarmos a conivência com o que sabemos ser errado. A poesia tem o papel de elevar o espírito rumo à perfeição.
            Se o espírito sopra onde quer, que nossa poesia seja o sopro que irá formar vento e espalhar-se por onde quer que existam ouvidos de ouvir, olhos de ver, sentidos de sentir...
            Levaremos nosso acreditar a toda parte; cantaremos as verdades do infinito sempre que se nos apresentar a chance; faremos com que as oportunidades aconteçam.
            Não pretendemos tomar o mundo de assalto, pois não queremos agredir a quem quer que seja. Mas sabemos que as luzes espirituais devem servir à humanidade como um todo, por isso levaremos estas luzes em nossas vozes, em nossas mãos e em nossos atos, buscando nossa evolução em conjunto com a evolução do próximo.
            Rimaremos Fé com Esperança e com Caridade.
            Confortaremos os infelizes da terra mostrando-lhes a Eternidade que nos espera.
            Buscaremos a total liberdade de todas as fôrmas e formas. Nossa linguagem será aquela que exprime a realidade universal em sua essência, liberta de convencionalismos e formalismos. Usaremos as palavras conhecidas e as intuídas, sem limites para a expressão de nosso ser e de nosso saber.
            Queremos escrever sonetos, éclogas, sextilhas, cordel, canções, odes, baladas e versos livres. Pouco importa a forma desde que expresse um conteúdo que transcenda as palavras.
Queremos poder ser vistos como poetas e artistas sem rótulos. Dialogaremos com a tradição bem como com a contemporaneidade. Estaremos inseridos no mundo das letras sem lhes pertencermos e vencendo-o quando necessário.
A prudência e o bom senso pautarão o que produzirmos, isto é ponto fundamental. Não basta seguir regras métricas, não basta vocabulário rebuscado ou trabalhado, é preciso acima e primeiro de tudo que nossa expressão traga em si a essência que não fuja à lógica.
Seguiremos nossa intuição filtrada pela razão. O ser humano não pode viver nos extremos, somente o equilíbrio perfeito entre saber e sentir possibilita-lhe ser completo.
Não ficam aqui definidos todos os aspectos e possibilidades da Poesia Espírita; dela apenas se podem dizer as primeiras palavras, nunca a última. A Poesia Espírita será construída dia a dia, passo a passo, verso a verso, sopro a sopro. Cada texto inaugura uma tradição que se esgota no momento mesmo de sua enunciação.

Glaucio Cardoso
Em 2012.
155º ano da publicação de O livro dos espíritos.
80º ano da publicação de Parnaso de Além-Túmulo.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Sopro III

Novas ideias,
novas palavras,
velhos saberes.
Especialidade
do que já é sabido
desde o tempo de antes;
o que foi escondido,
abafado, restrito,
mas nunca esquecido.
A razão explicando a sensação,
iluminando a crença
para que seja eternamente inabalável.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Para Luise
Há sempre um beijo a recordar,
um aceno que não se deu,
um adeus que o tempo não diz,
uma ânsia de tanto esperar,
um momento que não se perdeu
e a promessa que lhe fiz.
Podemos ser jovens até a velhice
de um sonho que não acordou;
como a onda que sempre marulha
em silêncio o que a gente não disse,
meu olhar o olhar dela tocou
e o incêndio nasceu da fagulha.
E a mulher sonhada, amada, almejada,
para longe voltando o olhar,
vislumbrando o passado-presente de si,
em minh’alma faz constante morada
a fazer-me dormir e sonhar e acordar
com o mim mesmo que quase esqueci.
Lia, para mim, uma história
tão minha, ainda que alheia,
de coisas por nós não vividas
que se gravam na memória
de uma carta escrita na areia,
com letras das mais coloridas.
Esse sonho que vivemos enfim,
foi passado, é presente e futuro
e não coube no olhar do profeta.
Vou cantar-te em versos sem fim;
sempre amada serás, eu te juro,
pois me fazes sentir um poeta.