terça-feira, 21 de abril de 2015

Amadurecências



A velhice pode chegar antes do tempo,
pois velhice não é idade
Ou abstrações numéricas.
A velhice é um estado,
Uma condição, um momento.

A velhice chega quando deixamos,
Quando deixamos pra trás,
Quando falha a memória,
Quando falta o fôlego,
Quando foge o ânimo,
Quando o tesão é mais mental que físico,
Quando nos desapegamos dos preconceitos
Mesmo sem mudar de ideia.

A velhice me chegou
Entre um gole de café
E um naco de pão.

A velhice vem com a desilusão
Do dinheiro, da posse, da inveja.

Vem, velhice, vem pra nunca mais,
Pra me despertar da falsidade,
Pra me salvar da irritante mania de ser “jovem”,
Pra me mostrar que ser velho
É reinventar-se constantemente,
E que o contrário disso
É a indesejável mesmice.

Arre! Cansei de ter idade!

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Sempre aqui



Quando tua morte chegou
Eu já estava preparado.
Havia organizado os papéis,
Havia pensado os detalhes,
Havia ensaiado as lágrimas
E os comedidos gestos fúnebres,
Mas não me preparei
Pra tua ausência!
Agora não sei que fazer
Com o espaço de sobra,
Com o segundo lugar do sofá,
Com a comida que é sempre muita,
Com o silêncio depois do bom dia.
Tua morte foi toda de uma vez,
Tua ausência chega toda hora.
A morte é aguda,
A ausência é crônica.
Tua morte ficou no campo santo,
Tua ausência está presente nas fotografias.
Belas doutrinas nos ensinam
Que a morte não é o fim,
Mas é sozinhos que temos de aprender
A viver com o sem fim da ausência.
É sonzinho que aprendo
A viver com o sem você aqui...