quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Um Manifesto da Poesia Espírita

            Louvaremos em nossos versos à Causa Primária de todas as coisas sem constrangimento por dizer-Lhe o nome. Também não demonstraremos temor diante do que é Amor, Justiça, Misericórdia e Bondade em sua essência e infinitude. Todas as nossas formas de escrita serão para Ele e por Ele.
Queremos cantar a vida em suas múltiplas manifestações. A existência que se desdobra em incontáveis encarnações. A felicidade da reparação de atos e atitudes, de renovação de posturas e de saberes.
Queremos estreitar o contato entre os mundos material e espiritual, seja apontando-lhe a existência no que escrevemos, seja retratando suas belezas, seja tendo a parceria dos poetas já libertos da ilusão da matéria.
            Sem estar com os olhos fechados para as agruras e desigualdades do mundo, não nos deixaremos contaminar por eles no sentido de não aceitarmos a conivência com o que sabemos ser errado. A poesia tem o papel de elevar o espírito rumo à perfeição.
            Se o espírito sopra onde quer, que nossa poesia seja o sopro que irá formar vento e espalhar-se por onde quer que existam ouvidos de ouvir, olhos de ver, sentidos de sentir...
            Levaremos nosso acreditar a toda parte; cantaremos as verdades do infinito sempre que se nos apresentar a chance; faremos com que as oportunidades aconteçam.
            Não pretendemos tomar o mundo de assalto, pois não queremos agredir a quem quer que seja. Mas sabemos que as luzes espirituais devem servir à humanidade como um todo, por isso levaremos estas luzes em nossas vozes, em nossas mãos e em nossos atos, buscando nossa evolução em conjunto com a evolução do próximo.
            Rimaremos Fé com Esperança e com Caridade.
            Confortaremos os infelizes da terra mostrando-lhes a Eternidade que nos espera.
            Buscaremos a total liberdade de todas as fôrmas e formas. Nossa linguagem será aquela que exprime a realidade universal em sua essência, liberta de convencionalismos e formalismos. Usaremos as palavras conhecidas e as intuídas, sem limites para a expressão de nosso ser e de nosso saber.
            Queremos escrever sonetos, éclogas, sextilhas, cordel, canções, odes, baladas e versos livres. Pouco importa a forma desde que expresse um conteúdo que transcenda as palavras.
Queremos poder ser vistos como poetas e artistas sem rótulos. Dialogaremos com a tradição bem como com a contemporaneidade. Estaremos inseridos no mundo das letras sem lhes pertencermos e vencendo-o quando necessário.
A prudência e o bom senso pautarão o que produzirmos, isto é ponto fundamental. Não basta seguir regras métricas, não basta vocabulário rebuscado ou trabalhado, é preciso acima e primeiro de tudo que nossa expressão traga em si a essência que não fuja à lógica.
Seguiremos nossa intuição filtrada pela razão. O ser humano não pode viver nos extremos, somente o equilíbrio perfeito entre saber e sentir possibilita-lhe ser completo.
Não ficam aqui definidos todos os aspectos e possibilidades da Poesia Espírita; dela apenas se podem dizer as primeiras palavras, nunca a última. A Poesia Espírita será construída dia a dia, passo a passo, verso a verso, sopro a sopro. Cada texto inaugura uma tradição que se esgota no momento mesmo de sua enunciação.

Glaucio Cardoso
Em 2012.
155º ano da publicação de O livro dos espíritos.
80º ano da publicação de Parnaso de Além-Túmulo.

Nenhum comentário:

Postar um comentário