domingo, 26 de julho de 2026

Brasa 2026

 

No dia 8 de julho estive na Universidade Federal da Bahia (UFBA), participando do evento da Brazilian Studies Association.

Durante o Simpósio Poesia e performance I: das letras coloniais à voz contemporânea apresentei a comunicação "Mística e identidade na música de Moacyr Camargo" e pude acompanhar diversas outras comunicações de colegas. 




sábado, 20 de junho de 2026

Sobre-escrito


Sobre o que escrever?
Quando falta assunto,
mas sobra desejo
e palavras pedem som,
resta o refúgio da
metalinguagem.

Meta linguagem em todo tema
para atingir a meta,
linguagem a se fazer.
Tema a linguagem impostora
e meta a língua
nas fendas do poema,
pra arrancar suspiros e gemidos
do corpo aberto da palavra.

Glaucio Cardoso

terça-feira, 2 de junho de 2026

Um voo de 25 anos


    Ao receber a edição mais recente da Revista Asas, fui tomado pelo sentimento do inusitado.

    No editorial de Cláudio Luchesi, que é sempre a primeira coisa que leio a cada edição, eis que ele diz: “Não é sempre que se pode celebrar 25 anos de um trabalho.”

    Estremeço. 25 anos da Asas!? Como não vi isso chegando?

    Fui lançado no tempo. Ainda me recordo do dia em que vi a primeira edição. Eu voltava do trabalho e desci no Largo da Carioca, coração do Rio de Janeiro, a caminho da faculdade, quando parei em frente a uma banca de jornais para meu ritual de olhar as publicações. E lá estava um imponente Republic P-47 Thunderbolt com as cores do 1º Grupo de Aviação de Caça e em pleno voo! Claro que eu precisava comprar aquela revista, nem que para isso tenha tido de abrir mão de lanchar na faculdade.

    Segui comprando a publicação a cada bimestre. Depois de um ano me tornei assinante, o que tem se mantido até hoje (exceto por um breve período em que não renovei a assinatura, mas prossegui comprando a edição em banca).

    Com a edição 142 nas mãos me ponho a refletir no que me ocorreu nos últimos 25 anos.

    Concluí a graduação em letras. Fiz mestrado em literatura brasileira. Iniciei uma inacabada graduação em história da arte. Me doutorei em teoria literária. Me casei. Separei. Casei e separei. Casei e fui pai. Dei as boas vindas a novos amigos. Me despedi de meu pai. Publiquei livros e artigos. Comprei uma casa. Passei por diversas escolas. Passei por períodos de desemprego e incerteza. Passei pela pandemia. Vi governos ascenderem e caírem. Presenciei uma tentativa de golpe de estado. Greves. Avanços e retrocessos...

    E durante tudo isso, acompanhei as mudanças na aviação mundial, como a chegada dos veículos não tripulados, as crises, a história da aviação sendo escrita e também recordada. A Asas se tornou uma parte tão constante de minha vida, de minha rotina, que não creio ser fácil lembrar de um momento em que ela não estivesse presente, nem que fosse como um objeto pousado na mesa do fundo em uma fotografia.

    Este texto não tem a pretensão de ser um grande registro ou uma homenagem retumbante. É apenas uma reflexão sobre como a permanência de algo não exclui a constante transformação e crescimento.

    Penso que o que caracteriza a perenidade da revista seja justamente sua capacidade de constantemente apresentar o novo sem desconectar-se de sua identidade. 

    Para mim, o que mais importa é a presença que a Asas tem em minhas leituras. Desde criança que me interesso por aviação, possuindo de livros a miniaturas, a maior parte adquirida já na vida adulta. Encontrar a Asas foi certamente um divisor de águas (ou seria um divisor de “asas”?), pois me trouxe, além das informações históricas, que sempre motivam o aficionado pelo tema, a atualidade do estado da aviação.

    Creio não ser exagero dizer que, ao longo dos 25 anos da revista, ela nos proporcionou acompanhar a atualização da aviação em tempo real e ao mesmo tempo nos permitiu um constante voo pelas páginas da história.

    Neste ano em que chego aos 50, expresso minha gratidão à revista por ter sido minha companhia ao longo de metade da minha vida, passando por céus de brigadeiro, voando no cisca e atravessando turbulências para me revelar uma paisagem incrível acima de qualquer nuvem.

    E que venham outros voos.

Glaucio Cardoso

02/06/2026





A coleção completa no dia de arrumação, antes de ir para a nova estante. Cada pilha comporta dois anos de publicação.

Algumas das edições especiais. A Asas foi pioneira em publicar material sobre o SU-35 e sobre o Gripen brasileiro.

A editora da revista mantém em seu catálogo algumas obras importantes para a história da aviação mundial, dentre as quais possuo estas.



Em minha biblioteca, há esse espaço dedicado à aviação, onde a Revista Asas vai ocupando espaço crescente.

sexta-feira, 27 de março de 2026

Da persistência


A vida é um inventário

de fracassos.

Contabilizamos as perdas,

as derrotas e as quedas

como quem organiza

um estoque de insucessos

que chegam sem aviso.

Quando notamos

o trem foi embora…

quando notamos

o momento passou…

quando notamos

já nos falta o fôlego,

o ânimo

e o tesão.

Nunca conhecemos

quem não levou porrada,

sempre há uma pedra

na qual todos tropeçam

e de uma queda

todos vão ao chão,

sem ter quem acuda.


E por isso

é preciso saber levantar.

Glaucio Cardoso

25/03/2026

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Canis benedictus

 

Deus te abençoe, irmão cão,

pela forma de amar

sem expectativa.

Pela sensibilidade sobre

os seus humanos.


Deus abençoe esse teu jeito

de receber nosso cansaço

no fim de cada dia.


Bendito seja esse teu olhar

que busca entender como estamos

e que pleno de ternura

parece nos dizer

“estou aqui.”


Deus abençoe teus sons…

de alerta,

de atenção,

de afago,

de presença.

Que mesmo em silêncio

e sem falar tanto diz

com um simples inclinar de cabeça.


Deus te abençoe,

cão adjetivo,

de raça,

de caça,

cão guia,

cão de casa,

cão na rua.


E sendo tu bendito,

perdoa a nós humanos

que mesmo sabendo o que fazemos,

não fazemos o que sabemos.


Glaucio Cardoso

10/02/2026


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Quando o Dorminhoco acordar


Desde que me entendo por leitor, há um gênero de histórias que me chama particular atenção: as distopias. 

Para os pouco familiarizados com o gênero, basta dizer que distopias são narrativas futuristas que geralmente apresentam a opressão dos povo por governos autoritários ou que mostram uma sociedade decadente em decorrência da configuração social do momento em que tais obras são escritas. Servem como alerta, mas a prova do tempo pode dotá-las de um caráter profético.

Li algumas das principais obras do gênero: 1984, Admirável mundo novo, Farenheit 451, Um cântico para Leibowitz, Tropas estelares, Um estranho numa terra estranha, e até algumas bem mais recentes, como a trilogia Jogos vorazes.

E agora me deparei com O dorminhoco (The Sleeper awakes), de H. G. Wells, e eis que sou surpreendido por uma distopia pouquíssimo comentada, para não dizer completamente ignorada.

A história é simples: um britânico do século XIX, Graham, após uma semana de insônia, adormece profundamente e só acorda depois de 203 anos, descobrindo, para sua surpresa, que é o proprietário de metade do planeta. E mais: ao longo dos dois séculos em que permanecera em um estado de sono próximo à não-vida, Graham se tornara uma espécie de Messias aguardado por uma sociedade cujo ditado, “Quando o Dorminhoco acordar”, era sussurrado com uma prece de esperança, com a certeza de que ele mudaria toda a situação na qual o povo se encontrava.

Quando publicou a primeira versão de sua narrativa (ele teria ficado insatisfeito com o final, publicando uma versão revista e definitiva em 1910), Wells não era um iniciante no gênero distópico, já tendo publicado, em 1895, sua mais famosa obra: A máquina do tempo. Sim, embora a história do viajante temporal seja mais conhecida como ficção científica, ela é também uma narrativa distópica (explico porque em outro momento).

Em O dorminhoco, o futuro que se apresenta a Graham é o de uma sociedade na qual a “empresa” substituiu os governos, a democracia é considerada um erro do passado. Há massas inumeráveis de trabalhadores que trocam seus dias de trabalho por alimentação. Não há o espaço privado, tudo pertence à empresa e àqueles que a gerenciam em nome do Dorminhoco.

Embora inferior às outras obras do autor, é impossível não notar como seus ecos alcançam as distopias que marcaram o século XX, como aquelas que eu mesmo já mencionei.

O final do livro é um tanto abrupto, e há alguns trechos bastante irregulares, mas ao pensarmos que este livro foi escrito há mais de cem anos, e fazendo a comparação da sociedade encontrada por Graham com a nossa, somos levados a constatar o porquê de distopias serem tão perturbadoras quando, escritas como ficção no passado, parecem concretizar-se no presente. 

Só nos resta esperar que as coisas mudem quando o dorminhoco acordar.


Glaucio Cardoso

19/02/2026

sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Escapamento


A cidade me atravessa

feito uma linha de trem,

onde “centenas vão sentados”

e “milhares vão em pé.”

A cidade me engarrafa,

trava meus passos

enquanto me obriga a andar

sem saber um porquê.

No fim do dia,

a cidade me arrasta,

pesa,

cansa.

A consciência do que me impõe

me assalta e só posso gritar

“mãos ao álcool!”

pro sono vir mais solto.

Onde quer que eu vá,

vai a cidade em mim

feito um sombra

com cheiro de escapamento.

Só eu não escapo.

Glaucio Cardoso

09/11/25

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Para que poetas em tempos de inteligência artificial?

 Para Alberto Pucheu e suas fronteiras


Já havíamos criado os computadores,

o preservativo descartável,

a máquina vapor e a roda dos enjeitados.

Já domináramos o fogo,

os átomos e os outros.

Já tínhamos conseguido ligar o mundo todo

numa só tomada (e que não era a de consciência)

e havíamos reduzido o horizonte

ao retângulo líquido a que nos acorrentamos.

Só o que faltava era oficialmente entregar à máquina

o que antes era nosso privilégio.

A falsa sensação de facilidade

nos cega para o que ocorre diante de nossos olhos.

As mesmas empresas que acusam de pirataria

aqueles que baixam filmes e livros e músicas e HQs

são aquelas que investem em algoritmos que pilham

as artes alheias e constroem frankensteins de partes canibalizadas.

Para que poetas em tempos de inteligência artificial?

Basta teclar meia dúzia de comandos

e o texto surge pronto,

carregado de clichês confortáveis,

mas o poema verdadeiro e humano

deverá sempre representar o incômodo e o inconformismo.

Atrás do algoritmo que impõe o alucinado ritmo da produtividade e rapidez,

esconde-se o projeto trevoso da eliminação da alma humana.

Não escrevemos ou lemos poesia

na busca cômoda do que nos parece conforto.

Escrevemos e lemos poesia para que

alcancemos o logro e o engodo,

para trapacear contra um mundo

que a cada dia deseja nos reduzir

a cidadãos consumidores produtivos.

Escrevemos e lemos poesia

como um gesto libertário que não se pode conter

em comandos prontos de quem tem ódio por aqueles

que escrevem e leem poesia.

Somos poetas e resistentes,

talvez nunca vencedores, porém sempre insubmissos.

Escrevemos nossos poemas em blocos de papel ou de ideias,

lemos poesia em livros,

em blogs,

em posts,

em postes,

em muros

e nas conduções.

No alvorecer do que promete ser o ocaso da individualidade,

o gesto simples de escrever em papel

é ato de insubordinado;

o gesto simples de criar rimas líricas

é ato de insubordinado;

o gesto simples do improviso, do repente, do slam

é ato de insubordinado;

o gesto simples de se declarar poeta

é ato de insubordinado.

Insubordinados somos todos nós,

os que resistimos e persistimos

em criações inteligentemente artificiosas

carregadas da ilusão do espontâneo

e, ainda assim, mais sinceras, verdadeiras e vicerais

do que quaisquer roubos perpetrados

por algoritmos incapazes de compreender

a verdade ficcionalizada no mais profundo de nós.

Escrevemos e lemos poesia por sabermos

que pedir ao algoritmo que faça aquilo

a que falsamente alguns têm dado o nome de “arte”

equivale a menosprezar o sacrifício de Prometheus

e entregar o fogo sagrado não de volta aos deuses,

mas aos torpes homens de negócios.

Para que poetas em tempos de inteligência artificial?

É a pergunta que mesmo ao ser formulada

parece impossível de ser dita.

E a resposta talvez se mostre

mais pelo gesto que pela palavra.

Você, eu, cada um de nós que ainda insistimos

em escrever e ler poesia,

contra todo o horror,

contra todos os extremos,

contra todo o mecanicismo,

somos a prova e a esperança

de que algo há de persistir e de sobreviver

a estes tempos de desumanização

que se abate sobre nós.

Glaucio Cardoso

entre maio e agosto de 2025

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

O dia de hoje


É, às vezes dói demais.

É, mas deixa a dor doer,

Que essa dor é de ensinar.

É, cada dia sempre traz

O seu tanto de riso

E o seu pouco de choro.

É, nem sempre a festa vem,

Mesmo assim

Toda música é de dançar.

É, a gente só quer luz,

Mas o vento varre as folhas mortas

E a chuva lava a alma.

Então deixa

A chuva chover,

O vento ventar

E o sol de cada dia

SOLAR!

Glaucio Cardoso

10/01/2020

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Visita à casa do poeta que admiro


Eu piso com reverência

As lajotas de pedra da calçada.

Observo com encantamento quase ingênuo

Cada um dos móveis da sala.

Ritualisticamente,

Passo meus dedos

No tampo da mesa

Sem pensar que ali,

Naquela tábua,

Foi onde o homem

Comeu seu almoço corriqueiro,

Contou as moedas do magro salário,

Tomou a lição de filhos e netos,

Amargou as horas lacrimosas de desesperança.

Não, tudo em que

Consigo pensar

É no poeta debruçado

Sobre uma folha de papel

A criar para a cabeça dos leitores

Uma vida que nunca teve,

Mas que viveu plenamente.

Glaucio Cardoso

13/04/19

quinta-feira, 15 de maio de 2025

Poeta maldito... moleque vadio

 

No dia 29 de abril fiz uma exposição no Laboratório de Estudos de Poesia e Vocoperformance (LEV), como parte de seu ciclo de Audições Comentadas. A proposta desta atividade promovida pelo LEV é a de tecer análises sobre álbuns musicais dos mais diversos. 
Para minha participação, escolhi o álbum Poeta Maldito... moleque vadio, de Oswaldo Montenegro, gravado em 1979.
O disco em questão foi um fracasso de vendas, quase determinando o fim da carreira do músico carioca, que seria salva por sua participação em um festival da canção com "Bandolins".
Em minha exposição, procurei fazer um breve resumo da carreira de Oswaldo até o momento do lançamento do disco, comentando sobre suas influências seresteiras e seu estilo de composição. Enfoquei principalmente a construção temática do álbum e como a performance vocal do cantor é fundamental para a fruição de suas composições.
O Laboratório de Estudos de Poesia e Vocoperformance (LEV), sediado na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), é coordenado pelo Prof. Dr. Leonardo Davino de Oliveira e possui em seus quadros diversos pesquisadores, dentre os quais eu mesmo. Sua programação é aberta ao público e pode ser acompanhada pelo instagram @levuerj (LINK DIRETO).





domingo, 27 de abril de 2025

O Poeta sem máscara no Pontinho de Luz

 


No dia 13 de abril, estive no C. E. Pontinho de Luz, em Nilópolis (RJ), participando do Chá Fraterno em prol da instituição.

Na ocasião apresentei minha performance "O Poeta sem Máscara", composta por poemas autorais e músicas do Grupo Alma Sonora e de Oswaldo Montenegro.

Para quem ainda não conhece este meu trabalho, trata-se de uma performance minimalista e reflexiva, fruto de uma busca pessoal por novas dimensão de minha própria arte.

Foi uma tarde agradável, na qual recebi muito carinho e incentivo.

Algumas fotos.








quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Falando de canções (publicação)

 

Meu ensaio teórico, "Desencontros em trânsito: um diálogo entre Paulinho da Viola e Oswaldo Montenegro", foi publicado no volume 11 da Revista Jangada, cujo tema central foi Tecendo fios entre a literatura e a canção popular brasileira.

No meu texto, busco estabelecer uma rede de diálogos possíveis entre duas composições dos cancionistas citados no título, partindo do conceito de hipertexto e situando-as no contexto da ditadura militar.

O ensaio completo pode ser lido em https://www.revistajangada.ufv.br/Jangada/article/view/591

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Você sabe o que você canta? - 005

 – Analisando músicas espíritas –


O Tempo
(OUVIR)

Grupo Alma Sonora


Um dos critérios, talvez o principal, da escolha das canções que tenho analisado nesta série de textos é o de que preciso gostar delas em alguma medida. Pode não soar muito acadêmico, mas creiam quando digo que a maioria dos estudos na área de humanas possuem o critério do gosto pessoal em maior ou menor medida, embora nem sempre confessado.

Ainda me lembro da primeira vez em que ouvi o grupo Alma Sonora, de Curitiba-PA, cantando “O tempo”. Foi em uma das edições do Festival da Canção Espírita de Franca (FECEF). Quando a canção começou e fui acompanhando a letra pelo livrinho que a organização do evento distribui a cada edição, virei para meu amigo Anderson Daltro e falei emocionado: “Essa é uma das canções mais bonitas que já ouvi!”


O tempo é curto pra quem corre contra o tempo

O tempo é escasso pra quem não aperta o passo

O tempo passa devagar pra quem não tem com quem falar

O tempo quase não passa na vilinha de igreja e praça


A primeira parte da canção apresenta a temática que será predominante em toda ela: a relatividade do tempo a partir da percepção individual.

Note-se que os dois primeiros versos relacionam-se à mesma dimensão da realidade: a vida corrida que caracteriza a sociedade na qual nos encontramos mergulhados. É preciso estar sempre em movimento, ser produtivo, ser alguém que é útil para a sociedade. E quando sobra tempo para a vida?

O terceiro verso traz à tona um aspecto trágico decorrente daquilo que foi explorado nos dois versos anteriores: o sentimento de solidão. Se por um lado a vida corrida desta louca sociedade de consumo nos faz sentir que nunca temos tempo o suficiente, por outro essa mesma falta de tempo nos condena ao isolamento e assim vem a percepção de que, quando finalmente temos alguns momentos para descansar, somos assolados pelo silêncio. É a velhice que chega sem que realmente tenhamos criado laços; é o fim de semana vazio no qual buscamos nos ocupar com mais atividades para nos sentirmos úteis; é a impossibilidade do diálogo com os familiares para os quais somos ilustres desconhecidos.

No verso seguinte, vemos o contraste positivo a isso na imagem bucólica de uma vila perdida em algum lugar com o qual já sonhamos um dia, um lugar onde o tempo parece não passar, lembrando a “Cidadezinha qualquer” do poema de Drummond:


Casas entre bananeiras

mulheres entre laranjeiras

pomar amor cantar.


Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.


Devagar… as janelas olham.


Eta vida besta, meu Deus.


Essa vida que parece não passar é diferente daquele tempo estagnado que massacra aqueles que não têm com quem falar. Aqui, no verso em questão, atualiza-se o fugere urben que foi tão praticado pelos poetas neoclássicos do movimento que ficaria conhecido como Arcadismo.


O tempo voa, voa, voa, voa, pra quem não está à toa

Tempo é aliado pra quem sabe o que está do outro lado

O tempo voa, voa, voa, voa, e nunca vai parar

Tempo é inimigo mortal pra quem acha que a morte é o final


Aqui uma imagem clichê que associa a passagem do tempo ao voo. Essa sensação de que o tempo voa associa-se primeiro com o ocupar-se, mas não exatamente como o que foi mostrado na primeira parte da canção. Ali era a correria da vida cotidiana; aqui é um estar ocupado consigo, como a busca por compreender-se como um ser de dimensão espiritual que compreende a continuidade da vida para além das questões materiais, ecoando Teilhard de Chardin quando este dizia que "Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais vivendo uma experiência humana".

Na sequência, esse tempo que não para se mostra como algo que provoca a ansiedade naqueles que só veem a dimensão material da existência, em um contraste com o trecho anterior. A antítese do tempo aliado/inimigo mortal vincula a canção à ideologia espiritualista que será enfatizada pelo par “quem sabe o que está do outro lado” / “quem acha que a morte é o final”. O verbo “saber” remete ao conceito de certeza da vida futura, amplamente utilizada nas obras de Allan Kardec, enquanto a dúvida à respeito do porquê da existência humana é representada pela forma verbal “acha”, o que também se vê no seguinte trecho de A Gênese:


A certeza da vida futura dá outro curso a suas ideias, outro objetivo a seus trabalhos; antes de ter essa certeza ele trabalha apenas para a vida atual; com tal certeza ele trabalha tendo em vista o futuro sem negligenciar o presente, porque sabe que seu futuro depende da direção melhor ou pior que der ao presente. (Cap. II, it. 3)


Na sequência temos:


Tempo é marcação, finito argumento de uma encarnação

Tempo é ficção, meridianos, uma simples convenção


Aqui vê-se novamente a ideia que associa a percepção da passagem do tempo à sucessão de acontecimentos, o que nos leva à convenções arbitrárias que definem e estabelecem uma visão coletiva dessa passagem. Mais uma vez encontra-se em A Gênese:


O tempo é apenas uma medida relativa da sucessão das coisas transitórias; a eternidade não é suscetível de medida alguma, do ponto de vista da duração; para ela, não há começo, nem fim: tudo lhe é presente. Se séculos de séculos são menos que um segundo, relativamente à eternidade, que vem a ser a duração da vida humana?! (Cap. VI, it. 2)


A canção finaliza-se com o verso “Se você quer saber, tempo existe pra quem quer viver”, o que de certa maneira resume tudo o que foi dito ao longo de cada estrofe. Ao aproximar “tempo” e “vida”, a letra determina que ambos os vocábulos se igualam. Tempo e vida são portanto representantes da mesma dimensão humana, aquela que precisa ser fruída, aproveitada. O tempo existe quando vivemos a vida em plenitude, realizando nossas potencialidades e mirando um horizonte para além da dimensão material, seja quanto ao que consideramos ser “produtivo”, seja quanto à qualidade de vida que nos concedemos.

Glaucio Cardoso

Leia também:

01 - Canção da Alegria Cristã

02 - Cativar

03 - Flutuar

04 - Uma prece