quinta-feira, 20 de fevereiro de 2025

Falando de canções (publicação)

 

Meu ensaio teórico, "Desencontros em trânsito: um diálogo entre Paulinho da Viola e Oswaldo Montenegro", foi publicado no volume 11 da Revista Jangada, cujo tema central foi Tecendo fios entre a literatura e a canção popular brasileira.

No meu texto, busco estabelecer uma rede de diálogos possíveis entre duas composições dos cancionistas citados no título, partindo do conceito de hipertexto e situando-as no contexto da ditadura militar.

O ensaio completo pode ser lido em https://www.revistajangada.ufv.br/Jangada/article/view/591

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Você sabe o que você canta? - 005

 – Analisando músicas espíritas –


O Tempo
(OUVIR)

Grupo Alma Sonora


Um dos critérios, talvez o principal, da escolha das canções que tenho analisado nesta série de textos é o de que preciso gostar delas em alguma medida. Pode não soar muito acadêmico, mas creiam quando digo que a maioria dos estudos na área de humanas possuem o critério do gosto pessoal em maior ou menor medida, embora nem sempre confessado.

Ainda me lembro da primeira vez em que ouvi o grupo Alma Sonora, de Curitiba-PA, cantando “O tempo”. Foi em uma das edições do Festival da Canção Espírita de Franca (FECEF). Quando a canção começou e fui acompanhando a letra pelo livrinho que a organização do evento distribui a cada edição, virei para meu amigo Anderson Daltro e falei emocionado: “Essa é uma das canções mais bonitas que já ouvi!”


O tempo é curto pra quem corre contra o tempo

O tempo é escasso pra quem não aperta o passo

O tempo passa devagar pra quem não tem com quem falar

O tempo quase não passa na vilinha de igreja e praça


A primeira parte da canção apresenta a temática que será predominante em toda ela: a relatividade do tempo a partir da percepção individual.

Note-se que os dois primeiros versos relacionam-se à mesma dimensão da realidade: a vida corrida que caracteriza a sociedade na qual nos encontramos mergulhados. É preciso estar sempre em movimento, ser produtivo, ser alguém que é útil para a sociedade. E quando sobra tempo para a vida?

O terceiro verso traz à tona um aspecto trágico decorrente daquilo que foi explorado nos dois versos anteriores: o sentimento de solidão. Se por um lado a vida corrida desta louca sociedade de consumo nos faz sentir que nunca temos tempo o suficiente, por outro essa mesma falta de tempo nos condena ao isolamento e assim vem a percepção de que, quando finalmente temos alguns momentos para descansar, somos assolados pelo silêncio. É a velhice que chega sem que realmente tenhamos criado laços; é o fim de semana vazio no qual buscamos nos ocupar com mais atividades para nos sentirmos úteis; é a impossibilidade do diálogo com os familiares para os quais somos ilustres desconhecidos.

No verso seguinte, vemos o contraste positivo a isso na imagem bucólica de uma vila perdida em algum lugar com o qual já sonhamos um dia, um lugar onde o tempo parece não passar, lembrando a “Cidadezinha qualquer” do poema de Drummond:


Casas entre bananeiras

mulheres entre laranjeiras

pomar amor cantar.


Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.


Devagar… as janelas olham.


Eta vida besta, meu Deus.


Essa vida que parece não passar é diferente daquele tempo estagnado que massacra aqueles que não têm com quem falar. Aqui, no verso em questão, atualiza-se o fugere urben que foi tão praticado pelos poetas neoclássicos do movimento que ficaria conhecido como Arcadismo.


O tempo voa, voa, voa, voa, pra quem não está à toa

Tempo é aliado pra quem sabe o que está do outro lado

O tempo voa, voa, voa, voa, e nunca vai parar

Tempo é inimigo mortal pra quem acha que a morte é o final


Aqui uma imagem clichê que associa a passagem do tempo ao voo. Essa sensação de que o tempo voa associa-se primeiro com o ocupar-se, mas não exatamente como o que foi mostrado na primeira parte da canção. Ali era a correria da vida cotidiana; aqui é um estar ocupado consigo, como a busca por compreender-se como um ser de dimensão espiritual que compreende a continuidade da vida para além das questões materiais, ecoando Teilhard de Chardin quando este dizia que "Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais vivendo uma experiência humana".

Na sequência, esse tempo que não para se mostra como algo que provoca a ansiedade naqueles que só veem a dimensão material da existência, em um contraste com o trecho anterior. A antítese do tempo aliado/inimigo mortal vincula a canção à ideologia espiritualista que será enfatizada pelo par “quem sabe o que está do outro lado” / “quem acha que a morte é o final”. O verbo “saber” remete ao conceito de certeza da vida futura, amplamente utilizada nas obras de Allan Kardec, enquanto a dúvida à respeito do porquê da existência humana é representada pela forma verbal “acha”, o que também se vê no seguinte trecho de A Gênese:


A certeza da vida futura dá outro curso a suas ideias, outro objetivo a seus trabalhos; antes de ter essa certeza ele trabalha apenas para a vida atual; com tal certeza ele trabalha tendo em vista o futuro sem negligenciar o presente, porque sabe que seu futuro depende da direção melhor ou pior que der ao presente. (Cap. II, it. 3)


Na sequência temos:


Tempo é marcação, finito argumento de uma encarnação

Tempo é ficção, meridianos, uma simples convenção


Aqui vê-se novamente a ideia que associa a percepção da passagem do tempo à sucessão de acontecimentos, o que nos leva à convenções arbitrárias que definem e estabelecem uma visão coletiva dessa passagem. Mais uma vez encontra-se em A Gênese:


O tempo é apenas uma medida relativa da sucessão das coisas transitórias; a eternidade não é suscetível de medida alguma, do ponto de vista da duração; para ela, não há começo, nem fim: tudo lhe é presente. Se séculos de séculos são menos que um segundo, relativamente à eternidade, que vem a ser a duração da vida humana?! (Cap. VI, it. 2)


A canção finaliza-se com o verso “Se você quer saber, tempo existe pra quem quer viver”, o que de certa maneira resume tudo o que foi dito ao longo de cada estrofe. Ao aproximar “tempo” e “vida”, a letra determina que ambos os vocábulos se igualam. Tempo e vida são portanto representantes da mesma dimensão humana, aquela que precisa ser fruída, aproveitada. O tempo existe quando vivemos a vida em plenitude, realizando nossas potencialidades e mirando um horizonte para além da dimensão material, seja quanto ao que consideramos ser “produtivo”, seja quanto à qualidade de vida que nos concedemos.

Glaucio Cardoso

Leia também:

01 - Canção da Alegria Cristã

02 - Cativar

03 - Flutuar

04 - Uma prece


quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Sombras...


Pai,

eu volto a evocar o teu fantasma,

como se fosse possível

que te fizesses presente.

Eu volto a evocar tua partida

na vã tentativa de exorcizar

a presença de seu olhar

no espelho que me encara.

Volto a evocar você

nas dúvidas que me assaltam,

na busca por teus conselhos,

na procura por tua aprovação.

Eu te evoco a cada dia,

mesmo sabendo que nunca esteve ausente.

Glaucio Cardoso

09/11/2019


terça-feira, 27 de agosto de 2024

Jesus na minha casa


 Acho que vou mudar os móveis de lugar,

Pra deixar a sala mais arejada.


Acho que vou lavar os banheiros

pra deixar tudo perfumado.


Acho melhor trocar os lençóis e as toalhas.

Acho uma receita nova

de um prato especial.

Acho um lugar perfeito pra uma rede

e pra soneca da tarde.


É preciso deixar toda a casa pronta

pra chegada de Jesus.


Mas Jesus não pode ser visita!

Jesus tem que ser de casa,

daqueles que abrem a geladeira,

se servem de suco.


Jesus tem que me dizer bom dia,

boa tarde,

boa noite.

Mais do que qualquer sofá

é ele quem me dá conforto,

sacia a fome,

refresca a alma,

embala o sono.

Não precisa de luxo,

nem de excesso,

só do essencial.


Então acho que não vou

me preocupar com móveis,

pratos

ou toalhas.


Acho que vou arrumar meus pensamentos.


Acho que vou cuidar da minha fala.


Acho boa ideia abrir as portas da morada interior

e dizer de peito aberto

e dizer de alma liberta:

Seja bem-vindo, Jesus!

Glaucio Cardoso

03/12/2020

sexta-feira, 28 de junho de 2024

Você sabe o que você canta? - 004

 – Analisando músicas espíritas –



Uma Prece
(OUVIR)

Willi de Barros Gonçalves

João Bosco de Carvalho


Uma categoria musical muito difundida nos meios religiosos é conhecida como “canção-prece”, que pode ser definida como a composição musical que busca emular esteticamente uma oração. Geralmente estas canções caracterizam-se pela presença de um eu lírico que se dirige a Deus, a Cristo, aos anjos ou aos espíritos superiores com um discurso no qual pede-lhes a intercessão ou em agradecimento por algo.

Dentre os exemplos do gênero encontrados em todo o cancioneiro espírita, destaco a composição de Willi de Barros e João Bosco de Carvalho:


Poderosa águia que há no alto do totem

Dá-me tuas asas, me ensina a voar

Cruzar os horizontes, vencer montes e mares

Com a luz do saber, pela virtude de amar


Com tua força tamanha

Oh, urso me ajude a derrubar

As barreiras da vida

Que eu venha a encontrar


E eu venho pedir a ti, oh, tartaruga

Que o totem está a sustentar

Dá-me tua certeza de um dia poder chegar


A ver-te nas asas da águia

Na força do urso

Em todas as coisas criadas por ti

Eleva minh’alma, me faz tão perfeito

Me leva a saber

Que estás dentro de mim


Oh, Pai nosso que estás nos céus

Santificado seja o teu nome

Em favor de todos nós.


A canção se abre com a referência a um tipo de monumento religioso mais comum do que parece: o totem, geralmente uma estrutura vertical na qual são entalhadas representações simbólicas de animais característicos dos lugares onde cada sociedade originária habitava e se desenvolveu.

O estudo das culturas totêmicas ocupou a mente de diversos pensadores, dentre os quais destacam-se Sigmund Freud, Émile Durkhein, Franz Boas e Claude Lévi-Strauss, cuja leitura recomendo para quem desejar aprofunda-se no assunto. De modo bastante superficial, direi que nas sociedades totêmicas há o entendimento de que animais como a águia, o corvo, o urso, o lobo, a tartaruga (apenas para mencionar alguns dos mais frequentes no totemismo das Américas) seriam representações dos ancestrais míticos dos homens.

Este conceito abre-se em inúmeros sentidos de interpretação. Se os animais são os ancestrais dos homens, então estes também são vistos como animais, ou em outras palavras, como parte da natureza. Seria assim uma forma de compreender que toda a criação faz parte de um todo único, e que tal consciência se faz necessária para que o ser humano possa viver em harmonia com o planeta. Lembro aqui de Aílton Krenak (Ideias para adiar o fim do mundo) quando nos diz que o fato do homem ter perdido a capacidade de falar com as matas, com as montanhas e animais, esquecendo-se de que estes são seus parentes, está na raiz da destruição da natureza que hoje põe em risco a própria sobrevivência planetária.

O conhecimento totêmico da parentela entre homens e natureza foi também intuído pela emblemática figura de Francisco de Assis, que tratava tudo o que havia na natureza como irmãos, dando assim voz a uma espécie de totemismo cristão.

Pensemos nos símbolos totêmicos presentes na canção de Barros e Bosco, compreendendo a águia, o urso e a tartaruga em seu aspecto simbólico e arquetípico.

A águia, geralmente posta no topo dos totens, bem como outras aves específicas a cada comunidade, é aquela que vê mais longe e, por isso, possui uma visão do todo espacial. Representaria assim a razão, a estratégia, sendo também um sinônimo de coragem.

O urso é associado na canção à força. As sociedades xamânicas também o associam ao aprendizado (sim, você está pensando em Irmão Urso) e ao senso de maternidade.

A tartaruga costuma estar na base dos totens, uma vez que é um animal cujos pés estão sempre fincados ao chão. Representa a ancestralidade, o conhecimento acumulado ao longo do tempo.

Tais elementos, aparentemente não teriam qualquer relação com a filosofia espírita, uma vez que serão associados, em uma leitura superficial, a religiosidades ditas “primitivas” e portadoras de um fetichismo arraigado nas formas como culturas ancestrais se relacionam com o sagrado. No entanto, esta seria uma conclusão precipitada, errônea e possivelmente preconceituosa.

Tomando a águia, o urso e a tartaruga como ancestrais míticos dos homens, compreendendo-os como figuras arquetípicas, pensemos como eles são apresentados sob a ótica espírita na composição.

Dotada da racionalidade que a visão ampla lhe confere, a águia será representante da fé raciocinada a qual a espiritualidade nos convida. Esta fé gera a confiança de que todas as dificuldades da vida podem ser vencidas, o que dá aos homens a força para prosseguir na caminhada, tal qual um urso que aprende e se fortalece a cada passo. A paciência da tartaruga, firme na base de tudo, pode ser associada às palavras de Paulo de Tarso, que dirá ser a paciência um dos atributos do amor, sempre apontado pelos espíritos superiores como a base e o fundamento de toda a lei divina.

Assim, a composição de que nos ocupamos traduz o caráter universal dos ensinamentos da espiritualidade, presentes em todas as culturas, e finaliza demonstrando que os ensinamentos cristãos, representados pela apropriação que faz de versos do “Pai Nosso”, são uma das faces da relação dos homens com a espiritualidade.

Me ocorre também que, ao dialogar com o totemismo, a dupla Willi de Barros e João Bosco teve como referencial o aspecto do humano como parte da natureza, o que nos leva a representações poéticas dos quatro elementos: o ar representado pela águia; a terra configurada na presença imponente do urso; a água que flui no leito como a tartaruga flui no tempo; o fogo que desce dos céus, o Pentecostes ao qual o “Pai Nosso” evoca.

Glaucio Cardoso

LEIA TAMBÉM:

Flutuar

Cativar

Canção da Alegria Cristã