sexta-feira, 15 de abril de 2016

Tudo o que eu queria



Tudo o que eu queria
Era dizer a palavra certa
Que fosse capaz de apagar
Todos os erros cometidos.
Mas que palavra é essa?
Qual seria a expressão
Que faria voltar atrás no tempo
E que mudaria tudo o que foi,
Transformando tudo o que será?
Eu sou só um poeta
Com um punhado de versos,
Como poderia consertar o passado?
Pois sendo só um poeta,
Com minhas pobres rimas,
Eu me deixei ofuscar
Pela luz que buscava
E que me esqueci de fazer brilhar.
Tudo o que eu queria
Era materializar
Em palavras e ações
Os ideais que tantas vezes
Cantei pelas ruas.
E cumprir meu ideal,
Apagar as sombras
Projetadas pelo fogo
E vivenciar a realidade
Em sua essência,
Mas eu sou só um poeta
Com um coração
Que já não cabe no peito,
Sou o veículo das verdades
Que ainda não aprendi a praticar.
Mas a aurora desponta no horizonte
E me faz saber que não cheguei ao meu final,
O brilho do sol
Mostra que em meio às minhas sombras
Germinam as sementes de luz
Que já andei plantando
E que hão de constituir
O jardim no qual poderei me perfumar.
Eu posso fazer um futuro
Onde vou habitar sem receio,
Onde vou ser grato
Por cada conquista,
Por cada queda,
Por cada lição.
Eu sou só um poeta
Com uma esperança
Prontinha para ser escrita...

sábado, 26 de março de 2016

Relido




Minha religião é a Poesia,
Pois nela me ligo e religo.

Religare, relíquia!

Todo eu me encontro
Nos versos que traço
Tremulamente nas folhas
De um surrado bloco
Tão viajante
Quanto as ideias!

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

A Cigana e o Vento




Foi em terras do Oriente,
Envoltas em tantos segredos,
Que brotou bela semente
Flor jovem entre os dedos,
Caminhante de tempos idos,
Errante de passos esquecidos.

A bela cigana menina
Que bailava ao entardecer,
Tal como rosa a florescer
Cada vez mais feminina,
Atingindo a mocidade
Como promessa de felicidade.

Tantos homens suspiravam
Ansiando um sorriso, um olhar,
Almejando as flores que brotavam
Da Cigana em seu bailar.
E tantos ardiam em agonia
Entoando o mote que dizia:

“Cigana, me dê teu coração!
Aceita, te estendo a minha mão!
Oh, bela! Tu és a minha luz!
Me enleva, teu bailar me conduz!”

Mas o que ninguém imaginava
É que nela já pulsava louca paixão
E que seu peito era um vulcão
Onde o amor já transbordava,
E com a alma repleta de agonia
Amava muito mais do que podia.

Sentimento que a completava,
Um amor que era um tormento,
Uma paixão que a inflamava,
De tanto dançar ao vento,
Aconteceu o que nunca se esperou,
Pois pelo vento se apaixonou!

Mas o vento é menino levado
E não para um minuto sequer;
E é por isso que Cigana caminha,
Pés na estrada, coração enamorado,
Pelo mundo feito avezinha
A menina cigana se fez mulher.

“Oh, Vento! Te estendo a minha mão!
Me envolve, me arrasta qual tufão!
Escuta, ouve o meu cantar,
Que é teu, só teu o meu bailar...!”

E tantos foram seus caminhos
Buscando o seu grande amor,
Que até o vento em redemoinhos
Rendeu-se ao seu clamor,
E a dançar, assobiar e rodopiar
Por seus carinhos se deixou levar.

Seu amor só fazia crescer,
Em tantas terras, tantas vidas
Que mesmo as lágrimas sofridas
Eram como estrelas no alvorecer.
Tantos corpos a Cigana vestiu
Mas a chama não se extinguiu.

“Cigana, recebe os beijos meus,
Contigo não sei dizer adeus!
Bailemos num passo atemporal,
Sou vento e você meu vendaval!”

Cantem alto os violinos,
Pra contar a toda gente
Que nas trilhas dos destinos
Deu fruto aquela semente,
E que festeje toda a ciganada
A memória dessa lenda inacabada.



19/02/2016

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Chamado



Ele me disse no íntimo:
“Vem e segue-me!”
E me alertou desde logo
Que seu caminho
Era para ser trilhado
Com os olhos firmes na meta.
Era estrada pedregosa,
Estreita e de margens áridas.

Ele me disse no íntimo:
“Vai e vence-te!”
E me ensinou pronto e reto
Que não cabe ao homem
Ser melhor que outro homem,
Mas ser a cada dia
Um vitorioso de seu eu,
Ser sem melhor que a si mesmo.

Ele me disse no íntimo:
“Vem, toma de meu vinho!”
E me fez saber do amargo que vem no início
E das delícias do mais à frente.
Aplacou a sede que me abrasava
Há tanto tempo que eu nem sabia desde quando.

Ele me disse no íntimo:
“Vem, este é o pão que sou!”
E saciou minha fome,
Acalmou meu cansaço,
Deu-me o alento que nasce
Da certeza filha da esperança.

Ele me disse no íntimo:
“Vem e toca!”
E preencheu-me de tudo
Arrancando-me tudo:
Todo o meu orgulho,
Toda a minha ilusão,
Tudo o que nunca foi meu,
Tudo o que nunca foi eu.

Ele me disse no íntimo:
“Vem, a minha paz agora é tua!”
E desde esse dia
Nada mais me falta.