quarta-feira, 28 de julho de 2021
Entre Versos e Acordes
sexta-feira, 9 de julho de 2021
Ave de arribação
Sou ave de arribação
De passagem pelo céu.
Um céu tão meu,
Um céu que não me pertence,
Um céu antigo como o sol poente,
Um céu que viu muitos pássaros
A bater asas na ingenuidade
De crer que o dominavam.
Mas o céu é pré-dominante,
Manda a manobra,
Define o vôo,
O céu é eterno e mutável,
O resto somos aves de arribação
Passageiramente detentoras desse espaço.
Glaucio Cardoso
04/01/2020
sábado, 29 de maio de 2021
Despedidas
Não existe jeito fácil pra uma despedida.
Acenos de mão são sempre dolorosos
e todo aquele que parte
leva um pouco de quem fica.
Com quem parte
vão-se todos os dias não vividos,
os sorrisos ainda por sorrir…
Quem parte leva os abraços
que ainda queríamos trocar,
leva os sonhos não realizados,
leva todos os aniversários não celebrados
e os feriados sem viajar.
Mas quem parte também sempre deixa algo
naqueles que ficam:
deixa lembranças
felizes,
tristes,
engraçadas,
comuns,
lembranças que são vida!
Deixa as palavras
de ternura,
de amor
e de amizade,
palavras ditas
e caladas,
exemplos, sorrisos e afagos
tão naturais que nem se notava.
Quem parte deixa sementes
a ser cultivadas por quem fica.
Tudo o que fica e tudo que se vai
fazem parte da mesma saudade
e da mesma presença.
Glaucio Cardoso
2021
quarta-feira, 24 de março de 2021
Passos do amor
O Amor saiu sem máscaras pelos caminhos.
Se mostrava abertamente e mesmo
poucos o reconheceram.
Descobriu, sem surpresa,
que outros andavam se passando por Ele.
A Paixão, por exemplo.
A Paixão se mascara de amor
confundindo companheirismo com submissão
e partilha com posse.
Desequilibrada, a Paixão queima feito fogo
na mata seca,
e depois de passar,
tudo o que sobra são cinzas ao vento.
O Amor também foi confundido com a Volúpia.
Essa força geradora de vida
é capaz de aproximar o humano do divino,
e, ao unir corpos na entrega sincera,
aproxima as essências com a magia da intimidade.
Corrompida pela mesquinhez humana,
a Volúpia transforma o sagrado sexo
em moeda de troca e jogos de poder.
Tem quem pense toscamente
que o Amor é sinônimo de loucura,
essa turvação dos sentidos e da visão
que inverte tudo.
E assim, de passo em passo,
o Amor foi reparando
em tantas coisas
que são tomadas por ele.
Mas continuou seu caminhar,
certo de que nas encruzilhadas desse mundo
há de haver aqueles que o reconheçam pelo que é.
Criador, gerador, geratriz,
toque, afago, presença,
saudade, lembrança e promessa.
Porque ao Amor pouco importa
com o que o confundem.
Porque ao Amor só importa amar.
Glaucio Cardoso
fevereiro de 2021
sexta-feira, 29 de janeiro de 2021
Cifra indecifrável
Os mortos no mundo já passam de dois milhões…
(o que são dois milhões diante de 8 bilhões?)
No meu país, os mortos já passam de 200 mil…
(o que são 200 mil diante de mais de 200 milhões?)
Mais alguns milhares no meu Estado.
Mais algumas centenas na minha cidade.
Mais algumas dezenas no meu bairro
e uma meia dúzia só na minha rua.
Números que seguem sendo minimizados
pela ignorância dos negacionistas
[os anônimos e os notórios].
Números a que todos são reduzidos,
sejam os números de sinistros,
estatísticas
ou cepeefes.
Pelo menos um número
é maior que dúzias,
dezenas, centenas,
milhares ou milhões:
o número a menos na minha família!
Aquele um cuja ausência é infinita.
Aquele um diluído e invisibilizado nos gráficos
reduziu a zero toda a vida que ainda podia ser.
Que é esse um diante de milhões e bilhões?
Esse um é tudo,
esse um é nada,
esse um é a negação da negação,
esse um sou eu, é você, são eles.
Esse um somos todos nós.
Glaucio Cardoso
28/01/2021
Segundo ano da pandemia



