segunda-feira, 30 de janeiro de 2023

terça-feira, 27 de dezembro de 2022

Observador quântico


A caixa está fechada.

Tudo é possível,

tudo é provável.

Vivo e morto,

vivo e morro,

na infinitude diversa

de combinações.


A caixa está fechada.

Olhe e sou partícula,

feche os olhos e sou onda,

olhe de novo e sou de novo

parte inteiriça ondulável.


Vida: partícula visível.

Morte: onda invisível.


Passo de uma à outra

pela percepção do outro.

Partícula que parte de parte

da onda que anda e tresanda

partes de onde andou.


A caixa está fechada

e lá dentro um invisível gato

morre

e respira

e morre

e espreguiça,

enquanto Schrödinger suspira

possibilidades relativas.

Quanta diversidade a observar

no tempo de um murmúrio.


Sou o observador.

Sou o observado.

Estou agora

e outrora

e aurora.

No instante em que comecei a ser,

já tinha sido e sempre seria,

sempre serei,

sempre sou.


A caixa está fechada,

e, por isso,

tudo está em aberto.

Glaucio Cardoso

24/12/22

segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

Memórias de um amante da poesia - 04

 Livros intermináveis

“Acabar um bom livro é como deixar um bom amigo”.

William Feather (1889-1981)

Há algo de estranho com livros de poesia.

Quando alguém fala de um romance, por exemplo, e diz que “não conseguiu parar de ler”, fica subentendido que a pessoa leu o livro quase que de uma sentada só. Vem à mente a imagem de um leitor compenetrado na leitura de uma história, vivendo ao longo de um dia inteiro (ou talvez dois) as vidas daqueles personagens com os quais se identificou, sofrendo com suas tristezas e vibrando com seus sucessos, desejando ardentemente que o vilão receba seu castigo ao final da história.

O mesmo não se dá com livros de poesia.

A frase “não consegui parar de ler”, aplicada a um livro de poemas tem um sentido bem diferente.

Ao contrário de romances, contos e outros tipos de narrativa, a poesia não nos exige pressa de acabar, na realidade a poesia representa uma traição à rotina da vida cotidiana, sempre corrida, sempre cobrando das pessoas que não se demorem demais, pois tempo é dinheiro, comida é dinheiro, amor é dinheiro, vida é dinheiro, tudo resumido a um eterno aqui e para ontem que nos assola. A poesia rompe com tal lógica.

É claro que podemos imaginar um leitor devorando páginas e mais páginas de um livro de poemas, principalmente quando este o empolga, com uma celeridade absoluta. Entretanto, mesmo quando o leitor percorre as páginas de um livro de versos com olhos famintos, esta leitura será repleta de pausas e silêncios, ou não será leitura.

Há poemas e poetas que nos impõem longos momentos de análise, de espanto, de choque. São momentos nos quais muitas vezes nos vemos obrigados a largar o livro e ir fazer algo mais prosaico como assistir uma série, lavar a louça, cuidar dos cachorros ou simplesmente ficar sentando olhando para algum ponto situado entre nós e o infinito. São momentos em que sentimos a necessidade de voltar para nós mesmos, para aquele lugar de onde o poema nos retirou, nos deixando em estado de suspensão.

Quando somos arrebatados por um livro de poemas, não conseguimos parar de lê-lo, mesmo quando saímos para o trabalho e deixamos o livro em cima da mesa, ou no braço do sofá. O livro ficou e também nos acompanha, pois a leitura de um poema não termina no último verso, assim como a leitura de um livro não se acaba na última página.

Atualmente isso tem me acontecido com certa frequência. No momento em que escrevo estas linhas, não consegui parar de ler pelo menos dois livros de poemas. Um é o recentemente lançado É chegado o tempo de voltar a superfície, de Alberto Pucheu, do qual já li metade dos poemas que o compõem. A cada texto lido, sinto uma irresistível necessidade de parar e olhar ao redor, de soltar o livro e o manter junto a mim, de fechar as páginas depois de cada “só mais um e chega por hoje”.

Outro livro que não consigo parar de ler é Metade cara, metade máscara, poesia indígena de Eliane Potiguara que me retirou completamente de minha zona de conforto há mais de um ano, desde que cheguei à sua última página. Por vezes penso que o que mais fiz nos últimos doze meses foi revisitar cada um de seus versos tentando reencontrar uma parte de mim que sequer sabia perdida.

Talvez este seja o verdadeiro feitiço que a poesia lança em cada um de nós, essa impossibilidade de parar de ler os poemas. Talvez esta impossibilidade seja fruto do fato pouco comentado de que os poemas também não param de nos ler.

Glaucio Cardoso

30/11/2022

quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Era


Era antigo

Como antigos são os sonhos

Que esqueceram de acordar.

Como as flores

Que secaram

Em um livro

Que ninguém mais folheou.


Era antigo

Como antigos são retratos

Que o tempo desbotou.

Como diários

Esquecidos

Que ninguém mais quer ler.


E era eterno

Como eternas são certas canções,

Como as palavras do profeta,

Como o amor que não se amou.


E era tudo,

E era nada,

E era tanto que acabou,

Tal qual lenda,

Tal qual mito,

Que a memória preservou.


Cavaleiro que galopa

Num corcel de sonho e cor

Assim sou eu e é você:

Personagens de uma história

Que se esquece de acabar.

Glaucio Cardoso

Abril/2018

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Memórias de um amante da poesia – 03

 Poesia: A arte do encontro

Em geral, poetas são vistos como seres solitários e individualistas. Há até quem nos julgue egocêntricos. Há certa verdade nessa visão, pois a poesia é uma arte que permanece, em grande parte, no terreno do sujeito, de onde vem “subjetividade”, empregada para definir a visão de mundo de uma única pessoa.

Vem daí a ideia comumente difundida de que o poeta nasce e escreve imerso na solidão.

Talvez surpreenda ao senso comum a informação de que poetas são também extremamente afeitos à coletividade. Adoram se encontrar para discutir versos, próprios e alheios, ler poemas uns para os outros, comparar textos, etc.

A poesia proporciona sempre os mais inusitados encontros entre poetas e leitores, entre poetas e poetas, entre leitores e leitores.

Quanto aos encontros entre poetas, é sempre um momento agradável, apesar de também marcado por certo nível de conflito, quando aqueles que se dedicam a escrever versos têm a oportunidade de se juntar. Esses encontros não se dão apenas nos eventos como saraus e lançamentos de livros, mas podem acontecer até no acaso de cada dia, num corredor de shopping, num café.

Uma vez, me recordo agora, estava atravessando uma rua na cidade vizinha à minha, voltando nem me lembro de onde, quando ouvi alguém gritando “Salve o poeta de Mesquita!”. Virei-me para o ponto de onde vinha a voz e dei de cara com o sorriso sempre contagiante do poeta Macedo de Moraes (o Griot!), a quem tanto admiro, que me abria os braços. E ali, naquele abraço não programado, em meio aos sons estridentes que caracterizam as nossas cidades, reafirmamos nossa fraternidade de poetas, de amantes dos versos.

Em outras ocasiões pude me encontrar com poetas em eventos, entrevistas e saraus. Alguns membros dessa confraria são muito próximos, outros apenas conhecidos. Há aqueles que lia muito antes de começar a escrever meus próprios versos, como Moduan Matos, Jorge Rocha e João Prado; outros que fui descobrindo em minha formação de poeta, como Alberto Pucheu, Maurício Keller e Merlânio Maia; e aqueles que mais recentemente aportaram em minhas leituras, como Luiz Otávio Oliani, Elciomar Rocha e Alberto Centurião.

A cada encontro, trocamos ideias sobre o que estamos lendo e escrevendo, dividimos sucessos e fracassos, e criamos expectativas quanto aos próximos textos e encontros.

Para um poeta, é sempre gratificante o encontro com seu(s) leitor(es). Saber como um texto que saiu de sua cabeça encontra novos significados para outras pessoas. Descobrir que elas podem admirar um poema que muitas vezes não recebe muita consideração de quem o escreveu.

Mas o encontro entre poetas e leitores apresenta ainda uma dimensão inusitada que é formada por atemporalidade e desterritorialização.

Como leitor de poesia, já pude dialogar com autores que vivem em lugares dos mais distantes. Atualmente tenho acompanhado um poeta português de nome João Negreiros. Seus poemas me chegam do outro lado do oceano. É pouco provável que um dia nos encontremos pessoalmente. Entretanto ele é alguém com quem dialogo, graças aos seus textos nos quais nos encontramos. O mesmo se dá com Bruna Mitrano, poeta do mesmo estado que o meu, mas com quem só me avistei por intermédio de seus poemas viscerais.

Há aqueles poetas que me chegam vindos de outros tempos. García Lorca, Alfonsina Storni, Konstantinos Kaváfis. Apesar de há muito tempo terem deixado seus corpos para trás e ido “estudar a geologia dos campos santos”, estes poetas são meus contemporâneos, são meus amigos.

E agora percebo que nem mesmo a língua poderá ser uma barreira que impeça os encontros poéticos. Sempre, ou quase sempre, podemos contar com as traduções e também, no meu caso, há aqueles poetas que escrevem em inglês e em espanhol e que consigo ler em suas originalidades.

Talvez seja esse o objetivo primordial da poesia: promover encontros; romper barreiras temporais, geográficas, linguísticas; pôr um fim à solidão na qual muitas vezes nos vemos imersos.

A poesia é, assim como a vida, a arte de promover encontros apesar de, e graças à, tantos desencontros.