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segunda-feira, 21 de março de 2022

Questão de Gênero

 



Quando em mim

Cessarem todas as funções;

Quando meu corpo

Tornar-se casca oca

Tomada pela rigidez;

Quando eu me despedir

Dessa terra por onde caminho,

Sendo eu todo espiritual,

Energia enfim liberta

Do simulacro da vida,

Hei de encarar a mim mesmo

No tribunal da consciência

Que chama a cada um de nós

A prestar contas ao Infinito.

E a pergunta que ouvirei

Não será questão de gênero.


Pouco importará

Se fui homem,

Se fui mulher,

Se fui hetero,

Se fui homo,

Se fui trans.


Importa sim

Ter-me tornado homem de bem

A domar minhas más tendências;

Ter sido sábia mulher

Edificando um lar de luz;

Ter visto na heterogeneidade

A riqueza da obra divina;

Ter homogeneizado todos os seres

Em uma grande fraternidade

E ter transformado o meu caminho

Em roteiro do rumo certo.


Só assim poderei prosseguir

Minha jornada

Sabendo a que pertenço:

Sou do gênero divino

De cuja imagem sou semelhança.

Glaucio Cardoso

13/11/2015

segunda-feira, 2 de março de 2020

Da convocação



Vamos negar tudo,
Dizer que nada é real,
Somente o que eles dizem é válido.
Vamos justificar a morte dos nativos,
Vamos aplaudir a queima de livros,
Vamos vender tudo,
Vender a água,
Vender as matas, animais,
Vender vidas,
Vender o passado e o futuro
Enquanto nos tomam o presente.
Vamos fechar os olhos
À desumanização da polícia,
À desumanização do humano,
À demolição de nossas bases.
Vamos louvar heróis inventados,
Mitos mentirosos,
Ídolos com pés de barro.
Vamos esquecer quem somos
E comprar culturas estrangeiras
Cristalizadas e enlatadas.
Vamos louvar a ignorância,
Polarizar todos os lados.
Vam... NÃO!!!
Vamos parar de ser gado!
Vamos parar pra pensar!
Vamos parar de umbiguismo!
Vamos sonhar o amanhã!
Vamos fazer o amanhã!
Vamos fazer a diferença
Desfazendo a indiferença!
Vamos?
VAMOS!
Glaucio Cardoso
13/02/2020


segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Não escreverei um poema de Natal



Não escreverei um poema de Natal...
Todos os poetas escrevem poemas de Natal...
Ou
Muitos poetas escrevem poemas de Natal...
Ou
Alguns poetas escrevem poemas de Natal.
Por isso não tenho vontade
De escrever poemas de Natal.
Todo poema de Natal
Parece dizer as mesmas coisas
Embora dizendo diferente.
É a infância metafórica,
É o aniversariante esquecido,
É o trocar presentes por estar presente
E é lugar-comum que não acaba mais.
Eu queria mesmo
É que abolissem essas datas,
Quem sabe assim
Se eliminam as falsas congratulações,
As hipocrisias e as ternuras de ocasião.
Eu queria mesmo
É que não houvesse tempo certo
Para pensar no que é certo,
Que não houvesse mais
Fraternidade com hora marcada,
Nem oração regada a álcool.
E para não ver o Cristo
Resumido a uma farta mesa
Paga com sacrifício e desperdício,
Para não ser parte
Da limitação do sentimento,
Para não compactuar
Com a desumanização do Sagrado,
Só por isso,
Eu não escreverei um poema de Natal.
Glaucio Cardoso
22/12/2019

sexta-feira, 7 de junho de 2019

Canção do sim e do são



Um viajante do tempo
Que perdeu sua razão.
Na velha roda da vida,
Personagem da própria canção.
Todo escuro é passagem,
Todo destino é redenção.

É onde acaba o abismo
E começa a ascensão.

Essa jornada é de aprender
E sublimar a emoção.
A indecisão do profeta
Que se perde na visão.
A lucidez da loucura
E a loucura da razão.

É onde acaba o abismo
E começa a ascensão.

A velha chama secreta
Que aquece o coração
A consciência não esquece
O que sabe a intuição.
É preciso ter coragem
E seguir sua missão.

É onde acaba o abismo
E começa a ascensão.
Glaucio Cardoso
02/12/17