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sábado, 20 de junho de 2026

Sobre-escrito


Sobre o que escrever?
Quando falta assunto,
mas sobra desejo
e palavras pedem som,
resta o refúgio da
metalinguagem.

Meta linguagem em todo tema
para atingir a meta,
linguagem a se fazer.
Tema a linguagem impostora
e meta a língua
nas fendas do poema,
pra arrancar suspiros e gemidos
do corpo aberto da palavra.

Glaucio Cardoso

sexta-feira, 27 de março de 2026

Da persistência


A vida é um inventário

de fracassos.

Contabilizamos as perdas,

as derrotas e as quedas

como quem organiza

um estoque de insucessos

que chegam sem aviso.

Quando notamos

o trem foi embora…

quando notamos

o momento passou…

quando notamos

já nos falta o fôlego,

o ânimo

e o tesão.

Nunca conhecemos

quem não levou porrada,

sempre há uma pedra

na qual todos tropeçam

e de uma queda

todos vão ao chão,

sem ter quem acuda.


E por isso

é preciso saber levantar.

Glaucio Cardoso

25/03/2026

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Canis benedictus

 

Deus te abençoe, irmão cão,

pela forma de amar

sem expectativa.

Pela sensibilidade sobre

os seus humanos.


Deus abençoe esse teu jeito

de receber nosso cansaço

no fim de cada dia.


Bendito seja esse teu olhar

que busca entender como estamos

e que pleno de ternura

parece nos dizer

“estou aqui.”


Deus abençoe teus sons…

de alerta,

de atenção,

de afago,

de presença.

Que mesmo em silêncio

e sem falar tanto diz

com um simples inclinar de cabeça.


Deus te abençoe,

cão adjetivo,

de raça,

de caça,

cão guia,

cão de casa,

cão na rua.


E sendo tu bendito,

perdoa a nós humanos

que mesmo sabendo o que fazemos,

não fazemos o que sabemos.


Glaucio Cardoso

10/02/2026


sexta-feira, 14 de novembro de 2025

Escapamento


A cidade me atravessa

feito uma linha de trem,

onde “centenas vão sentados”

e “milhares vão em pé.”

A cidade me engarrafa,

trava meus passos

enquanto me obriga a andar

sem saber um porquê.

No fim do dia,

a cidade me arrasta,

pesa,

cansa.

A consciência do que me impõe

me assalta e só posso gritar

“mãos ao álcool!”

pro sono vir mais solto.

Onde quer que eu vá,

vai a cidade em mim

feito um sombra

com cheiro de escapamento.

Só eu não escapo.

Glaucio Cardoso

09/11/25

quinta-feira, 18 de setembro de 2025

Para que poetas em tempos de inteligência artificial?

 Para Alberto Pucheu e suas fronteiras


Já havíamos criado os computadores,

o preservativo descartável,

a máquina vapor e a roda dos enjeitados.

Já domináramos o fogo,

os átomos e os outros.

Já tínhamos conseguido ligar o mundo todo

numa só tomada (e que não era a de consciência)

e havíamos reduzido o horizonte

ao retângulo líquido a que nos acorrentamos.

Só o que faltava era oficialmente entregar à máquina

o que antes era nosso privilégio.

A falsa sensação de facilidade

nos cega para o que ocorre diante de nossos olhos.

As mesmas empresas que acusam de pirataria

aqueles que baixam filmes e livros e músicas e HQs

são aquelas que investem em algoritmos que pilham

as artes alheias e constroem frankensteins de partes canibalizadas.

Para que poetas em tempos de inteligência artificial?

Basta teclar meia dúzia de comandos

e o texto surge pronto,

carregado de clichês confortáveis,

mas o poema verdadeiro e humano

deverá sempre representar o incômodo e o inconformismo.

Atrás do algoritmo que impõe o alucinado ritmo da produtividade e rapidez,

esconde-se o projeto trevoso da eliminação da alma humana.

Não escrevemos ou lemos poesia

na busca cômoda do que nos parece conforto.

Escrevemos e lemos poesia para que

alcancemos o logro e o engodo,

para trapacear contra um mundo

que a cada dia deseja nos reduzir

a cidadãos consumidores produtivos.

Escrevemos e lemos poesia

como um gesto libertário que não se pode conter

em comandos prontos de quem tem ódio por aqueles

que escrevem e leem poesia.

Somos poetas e resistentes,

talvez nunca vencedores, porém sempre insubmissos.

Escrevemos nossos poemas em blocos de papel ou de ideias,

lemos poesia em livros,

em blogs,

em posts,

em postes,

em muros

e nas conduções.

No alvorecer do que promete ser o ocaso da individualidade,

o gesto simples de escrever em papel

é ato de insubordinado;

o gesto simples de criar rimas líricas

é ato de insubordinado;

o gesto simples do improviso, do repente, do slam

é ato de insubordinado;

o gesto simples de se declarar poeta

é ato de insubordinado.

Insubordinados somos todos nós,

os que resistimos e persistimos

em criações inteligentemente artificiosas

carregadas da ilusão do espontâneo

e, ainda assim, mais sinceras, verdadeiras e vicerais

do que quaisquer roubos perpetrados

por algoritmos incapazes de compreender

a verdade ficcionalizada no mais profundo de nós.

Escrevemos e lemos poesia por sabermos

que pedir ao algoritmo que faça aquilo

a que falsamente alguns têm dado o nome de “arte”

equivale a menosprezar o sacrifício de Prometheus

e entregar o fogo sagrado não de volta aos deuses,

mas aos torpes homens de negócios.

Para que poetas em tempos de inteligência artificial?

É a pergunta que mesmo ao ser formulada

parece impossível de ser dita.

E a resposta talvez se mostre

mais pelo gesto que pela palavra.

Você, eu, cada um de nós que ainda insistimos

em escrever e ler poesia,

contra todo o horror,

contra todos os extremos,

contra todo o mecanicismo,

somos a prova e a esperança

de que algo há de persistir e de sobreviver

a estes tempos de desumanização

que se abate sobre nós.

Glaucio Cardoso

entre maio e agosto de 2025

sexta-feira, 29 de agosto de 2025

O dia de hoje


É, às vezes dói demais.

É, mas deixa a dor doer,

Que essa dor é de ensinar.

É, cada dia sempre traz

O seu tanto de riso

E o seu pouco de choro.

É, nem sempre a festa vem,

Mesmo assim

Toda música é de dançar.

É, a gente só quer luz,

Mas o vento varre as folhas mortas

E a chuva lava a alma.

Então deixa

A chuva chover,

O vento ventar

E o sol de cada dia

SOLAR!

Glaucio Cardoso

10/01/2020

sexta-feira, 4 de julho de 2025

Visita à casa do poeta que admiro


Eu piso com reverência

As lajotas de pedra da calçada.

Observo com encantamento quase ingênuo

Cada um dos móveis da sala.

Ritualisticamente,

Passo meus dedos

No tampo da mesa

Sem pensar que ali,

Naquela tábua,

Foi onde o homem

Comeu seu almoço corriqueiro,

Contou as moedas do magro salário,

Tomou a lição de filhos e netos,

Amargou as horas lacrimosas de desesperança.

Não, tudo em que

Consigo pensar

É no poeta debruçado

Sobre uma folha de papel

A criar para a cabeça dos leitores

Uma vida que nunca teve,

Mas que viveu plenamente.

Glaucio Cardoso

13/04/19

domingo, 27 de abril de 2025

O Poeta sem máscara no Pontinho de Luz

 


No dia 13 de abril, estive no C. E. Pontinho de Luz, em Nilópolis (RJ), participando do Chá Fraterno em prol da instituição.

Na ocasião apresentei minha performance "O Poeta sem Máscara", composta por poemas autorais e músicas do Grupo Alma Sonora e de Oswaldo Montenegro.

Para quem ainda não conhece este meu trabalho, trata-se de uma performance minimalista e reflexiva, fruto de uma busca pessoal por novas dimensão de minha própria arte.

Foi uma tarde agradável, na qual recebi muito carinho e incentivo.

Algumas fotos.








terça-feira, 27 de agosto de 2024

Jesus na minha casa


 Acho que vou mudar os móveis de lugar,

Pra deixar a sala mais arejada.


Acho que vou lavar os banheiros

pra deixar tudo perfumado.


Acho melhor trocar os lençóis e as toalhas.

Acho uma receita nova

de um prato especial.

Acho um lugar perfeito pra uma rede

e pra soneca da tarde.


É preciso deixar toda a casa pronta

pra chegada de Jesus.


Mas Jesus não pode ser visita!

Jesus tem que ser de casa,

daqueles que abrem a geladeira,

se servem de suco.


Jesus tem que me dizer bom dia,

boa tarde,

boa noite.

Mais do que qualquer sofá

é ele quem me dá conforto,

sacia a fome,

refresca a alma,

embala o sono.

Não precisa de luxo,

nem de excesso,

só do essencial.


Então acho que não vou

me preocupar com móveis,

pratos

ou toalhas.


Acho que vou arrumar meus pensamentos.


Acho que vou cuidar da minha fala.


Acho boa ideia abrir as portas da morada interior

e dizer de peito aberto

e dizer de alma liberta:

Seja bem-vindo, Jesus!

Glaucio Cardoso

03/12/2020

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

Resmungos


Esses jovens de hoje!

Sempre rindo alto,

sempre barulhentos.

No meu tempo é que era bom,

no meu tempo era melhor!

Era bom baixar a cabeça,

era melhor não se envolver,

era bom ficar quieto,

era melhor não ser notado.


Mas esses jovens de hoje

parecem querer mudar

tudo de lugar

e abalar as estruturas.

No meu tempo é que era bom,

no meu tempo era melhor!

Melhor deixar como está,

melhor não se meter,

tá bom do jeito que tá.”


E esses jovens de hoje,

tão cheios de atitude,

tão plenos de sonhos,

tão livres das convenções.

Quando olho

para esses jovens de hoje

e penso no meu tempo,

sinto uma saudade imensa

desses jovens de hoje!

Glaucio Cardoso

14/02/24


quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Quem nunca


Eu nunca fiz terapia,

mas já apareci três vezes na televisão,

e isso me faz sentir

que existo para além de mim.


Eu nunca me suicidei,

mas já dei fim à minha vida

três vezes.

A primeira quando saí de casa,

a segunda quando me separei,

a terceira quando fui pai.


Eu nunca saí do país,

mas já perdi a conta

de quantas vezes

dei a volta ao mundo.


Eu nunca saberei quando a morte chegará,

mas desde que me fiz poeta

a eternidade me acompanha.


Glaucio Cardoso

22/02/19

domingo, 12 de novembro de 2023

Neste momento


Neste momento,

na periferia dessa cidade desigual,

alguém escreve um poema.


Neste momento,
na Ucrânia,
alguém escreve um poema.

Neste momento,
em Gaza,
alguém escreve um poema.

Neste momento,
em meio à fome africana,
alguém escreve um poema.

Neste momento,
para fugir do encarceramento,
alguém escreve um poema.

Neste momento,
em uma aldeia vizinha do garimpo,
alguém escreve um poema.

Neste momento,
diante do caos climático,
alguém escreve um poema.

Neste momento,
em qualquer lugar,
alguém que talvez você conheça
Escreve um poema que estabelece
um lugar de resistência
contra toda a desesperança.
E por isso,
neste momento,
eu não me sinto tão sozinho.

Glaucio Cardoso
25/10/23

quarta-feira, 11 de outubro de 2023

Fragilidade cósmica


No espaço,

gravitam globos

que flutuam frágeis

como bolhas de sabão.

É preciso muito tato,

ao menor sopro

podem perder-se

no escuro frio

do cosmo;

o mais simples

atrito

pode estourar

o que foi feito

num átimo de pensamento

tão eterno e duradouro

quanto se pode percebê-lo.

Somos todos,

pessoas, países, mundos,

todos somos bolhas de sabão:

fugazes e passageiros no tempo;

perenes e eternos no sentimento.


Glaucio Cardoso

07/08/15

segunda-feira, 18 de setembro de 2023

Levanta!


Levanta a cabeça, meu amor!

Tudo parece pesado

pra te fazer encontrar

tua própria força.


Levanta a cabeça

e sacode os cabelos

pra espantar

essas ideias de derrota.


Levanta a cabeça, meu amor!

As estrelas dessa noite

já apontam o sol que vem!


Levanta a cabeça

e pisa firme no solo,

com o olhar atento

e fixado no futuro.


Levanta a cabeça, meu amor!

Que só depende de você,

da sua esperança,

sua fé,

sua vontade.


Levanta a cabeça

e deixa luz te habitar!


Levanta a cabeça, meu amor,

e deixa o amanhã chegar!

Glaucio Cardoso

28/12/2020

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Intui ação

 


Que voz é essa que chega sem aviso?

Esse sopro que não tem origem,

mas que parece vir de tão perto

ainda que distante…

Mais do que acalanto,

esse convite ao despertar

leva o medo lá pra longe.


Em tua ação de ser-razão

não feche o sentir pro que te guia.

Intui ação no gesto,

no canto,

na palavra.


Em tua ação te crias

e te crês construtor do teu porvir.

Intui ação que há de vir

cedo ou sempre

no processo criador que se faz

em teu bailar,

em teu cantar,

em teu sorrir,

em teu viver,

em teu ser,

em tua ação.


Glaucio Cardoso

27/08/2021

Poema especialmente escrito para o 18º FECEF (Festival da Canção e Encontro de Arte Espírita de Franca), previsto para 2022, mas adiado para 2023, cujo tema é “A intuição, o ser e a arte”.


terça-feira, 4 de julho de 2023

De momento


O poeta também sofre,

O poeta também chora,

O poeta também cansa,

Também acorda de ovo virado,

Também tem fome e sede,

Desanima de vez em quando.


Se engana quem pensa

Que sua vida é só versos,

Ou que não tem espaço

Pra um engolir em seco.


Não, não e não.


Ser poeta não me pôs

A salvo da desdita

Nem me fez esquecer

Esta verdade:

O poeta também é gente!


E se sou poeta

É só porque sei que sou

Apenas um homem,

Por isso posso,

Como um Chaplin disfarçado,

Pegar todos os tropeços

E fazer uma valsa pra um só.


E assim vou versando,

Trovando, tropicando e levantando,

Apenas porque aprendi

Que o poeta também sorri!


Glaucio Cardoso

29/11/2013

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Uma rua só lembranças

Ainda são as mesmas árvores

com suas mesmas sombras.

As lojas ainda são as mesmas

e é o mesmo o cheiro do café

na mesma padaria da mesma esquina.

As mesmas rachaduras nas calçadas

ainda desenham as mesmas falhas.

Olho para as casas: são as mesmas!

E posso até jurar que são os mesmos antigos vizinhos

com seus mesmos mexericos

das mesmas vidas alheias.

A rua é toda a mesma daquele tempo,

mas ainda assim mudou.

Eu passo pelos mesmos lugares,

mas já não sou o mesmo,

já não vejo do mesmo jeito,

nem penso da mesma forma.

E isso é bom!

Porque a vida é assim mesmo.

Glaucio Cardoso

12/05/23

segunda-feira, 15 de maio de 2023

HÁ TEMPO

Se eu soubesse do fim do mundo,

teria dado mais abraços,
sorriria mais vezes sem motivo,
caminharia devagar mais vezes
e não me importaria de perder o ônibus.

Se eu soubesse do fim do mundo,
teria dito mais "sinto muito"
e menos "estou certo".
Deixaria de lado o "isto é meu"
e seria mais "estou aqui".

Se eu soubesse do fim do mundo,
tentaria ser mais sendo menos.

Mas o mundo ainda não acabou,
e tenho de pensar no que farei
com o tempo que me resta.

Glaucio Cardoso
06/05/23