Mostrando postagens com marcador você sabe o que você canta. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador você sabe o que você canta. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 28 de novembro de 2024

Você sabe o que você canta? - 005

 – Analisando músicas espíritas –


O Tempo
(OUVIR)

Grupo Alma Sonora


Um dos critérios, talvez o principal, da escolha das canções que tenho analisado nesta série de textos é o de que preciso gostar delas em alguma medida. Pode não soar muito acadêmico, mas creiam quando digo que a maioria dos estudos na área de humanas possuem o critério do gosto pessoal em maior ou menor medida, embora nem sempre confessado.

Ainda me lembro da primeira vez em que ouvi o grupo Alma Sonora, de Curitiba-PA, cantando “O tempo”. Foi em uma das edições do Festival da Canção Espírita de Franca (FECEF). Quando a canção começou e fui acompanhando a letra pelo livrinho que a organização do evento distribui a cada edição, virei para meu amigo Anderson Daltro e falei emocionado: “Essa é uma das canções mais bonitas que já ouvi!”


O tempo é curto pra quem corre contra o tempo

O tempo é escasso pra quem não aperta o passo

O tempo passa devagar pra quem não tem com quem falar

O tempo quase não passa na vilinha de igreja e praça


A primeira parte da canção apresenta a temática que será predominante em toda ela: a relatividade do tempo a partir da percepção individual.

Note-se que os dois primeiros versos relacionam-se à mesma dimensão da realidade: a vida corrida que caracteriza a sociedade na qual nos encontramos mergulhados. É preciso estar sempre em movimento, ser produtivo, ser alguém que é útil para a sociedade. E quando sobra tempo para a vida?

O terceiro verso traz à tona um aspecto trágico decorrente daquilo que foi explorado nos dois versos anteriores: o sentimento de solidão. Se por um lado a vida corrida desta louca sociedade de consumo nos faz sentir que nunca temos tempo o suficiente, por outro essa mesma falta de tempo nos condena ao isolamento e assim vem a percepção de que, quando finalmente temos alguns momentos para descansar, somos assolados pelo silêncio. É a velhice que chega sem que realmente tenhamos criado laços; é o fim de semana vazio no qual buscamos nos ocupar com mais atividades para nos sentirmos úteis; é a impossibilidade do diálogo com os familiares para os quais somos ilustres desconhecidos.

No verso seguinte, vemos o contraste positivo a isso na imagem bucólica de uma vila perdida em algum lugar com o qual já sonhamos um dia, um lugar onde o tempo parece não passar, lembrando a “Cidadezinha qualquer” do poema de Drummond:


Casas entre bananeiras

mulheres entre laranjeiras

pomar amor cantar.


Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.


Devagar… as janelas olham.


Eta vida besta, meu Deus.


Essa vida que parece não passar é diferente daquele tempo estagnado que massacra aqueles que não têm com quem falar. Aqui, no verso em questão, atualiza-se o fugere urben que foi tão praticado pelos poetas neoclássicos do movimento que ficaria conhecido como Arcadismo.


O tempo voa, voa, voa, voa, pra quem não está à toa

Tempo é aliado pra quem sabe o que está do outro lado

O tempo voa, voa, voa, voa, e nunca vai parar

Tempo é inimigo mortal pra quem acha que a morte é o final


Aqui uma imagem clichê que associa a passagem do tempo ao voo. Essa sensação de que o tempo voa associa-se primeiro com o ocupar-se, mas não exatamente como o que foi mostrado na primeira parte da canção. Ali era a correria da vida cotidiana; aqui é um estar ocupado consigo, como a busca por compreender-se como um ser de dimensão espiritual que compreende a continuidade da vida para além das questões materiais, ecoando Teilhard de Chardin quando este dizia que "Não somos seres humanos vivendo uma experiência espiritual. Somos seres espirituais vivendo uma experiência humana".

Na sequência, esse tempo que não para se mostra como algo que provoca a ansiedade naqueles que só veem a dimensão material da existência, em um contraste com o trecho anterior. A antítese do tempo aliado/inimigo mortal vincula a canção à ideologia espiritualista que será enfatizada pelo par “quem sabe o que está do outro lado” / “quem acha que a morte é o final”. O verbo “saber” remete ao conceito de certeza da vida futura, amplamente utilizada nas obras de Allan Kardec, enquanto a dúvida à respeito do porquê da existência humana é representada pela forma verbal “acha”, o que também se vê no seguinte trecho de A Gênese:


A certeza da vida futura dá outro curso a suas ideias, outro objetivo a seus trabalhos; antes de ter essa certeza ele trabalha apenas para a vida atual; com tal certeza ele trabalha tendo em vista o futuro sem negligenciar o presente, porque sabe que seu futuro depende da direção melhor ou pior que der ao presente. (Cap. II, it. 3)


Na sequência temos:


Tempo é marcação, finito argumento de uma encarnação

Tempo é ficção, meridianos, uma simples convenção


Aqui vê-se novamente a ideia que associa a percepção da passagem do tempo à sucessão de acontecimentos, o que nos leva à convenções arbitrárias que definem e estabelecem uma visão coletiva dessa passagem. Mais uma vez encontra-se em A Gênese:


O tempo é apenas uma medida relativa da sucessão das coisas transitórias; a eternidade não é suscetível de medida alguma, do ponto de vista da duração; para ela, não há começo, nem fim: tudo lhe é presente. Se séculos de séculos são menos que um segundo, relativamente à eternidade, que vem a ser a duração da vida humana?! (Cap. VI, it. 2)


A canção finaliza-se com o verso “Se você quer saber, tempo existe pra quem quer viver”, o que de certa maneira resume tudo o que foi dito ao longo de cada estrofe. Ao aproximar “tempo” e “vida”, a letra determina que ambos os vocábulos se igualam. Tempo e vida são portanto representantes da mesma dimensão humana, aquela que precisa ser fruída, aproveitada. O tempo existe quando vivemos a vida em plenitude, realizando nossas potencialidades e mirando um horizonte para além da dimensão material, seja quanto ao que consideramos ser “produtivo”, seja quanto à qualidade de vida que nos concedemos.

Glaucio Cardoso

Leia também:

01 - Canção da Alegria Cristã

02 - Cativar

03 - Flutuar

04 - Uma prece


sexta-feira, 28 de junho de 2024

Você sabe o que você canta? - 004

 – Analisando músicas espíritas –



Uma Prece
(OUVIR)

Willi de Barros Gonçalves

João Bosco de Carvalho


Uma categoria musical muito difundida nos meios religiosos é conhecida como “canção-prece”, que pode ser definida como a composição musical que busca emular esteticamente uma oração. Geralmente estas canções caracterizam-se pela presença de um eu lírico que se dirige a Deus, a Cristo, aos anjos ou aos espíritos superiores com um discurso no qual pede-lhes a intercessão ou em agradecimento por algo.

Dentre os exemplos do gênero encontrados em todo o cancioneiro espírita, destaco a composição de Willi de Barros e João Bosco de Carvalho:


Poderosa águia que há no alto do totem

Dá-me tuas asas, me ensina a voar

Cruzar os horizontes, vencer montes e mares

Com a luz do saber, pela virtude de amar


Com tua força tamanha

Oh, urso me ajude a derrubar

As barreiras da vida

Que eu venha a encontrar


E eu venho pedir a ti, oh, tartaruga

Que o totem está a sustentar

Dá-me tua certeza de um dia poder chegar


A ver-te nas asas da águia

Na força do urso

Em todas as coisas criadas por ti

Eleva minh’alma, me faz tão perfeito

Me leva a saber

Que estás dentro de mim


Oh, Pai nosso que estás nos céus

Santificado seja o teu nome

Em favor de todos nós.


A canção se abre com a referência a um tipo de monumento religioso mais comum do que parece: o totem, geralmente uma estrutura vertical na qual são entalhadas representações simbólicas de animais característicos dos lugares onde cada sociedade originária habitava e se desenvolveu.

O estudo das culturas totêmicas ocupou a mente de diversos pensadores, dentre os quais destacam-se Sigmund Freud, Émile Durkhein, Franz Boas e Claude Lévi-Strauss, cuja leitura recomendo para quem desejar aprofunda-se no assunto. De modo bastante superficial, direi que nas sociedades totêmicas há o entendimento de que animais como a águia, o corvo, o urso, o lobo, a tartaruga (apenas para mencionar alguns dos mais frequentes no totemismo das Américas) seriam representações dos ancestrais míticos dos homens.

Este conceito abre-se em inúmeros sentidos de interpretação. Se os animais são os ancestrais dos homens, então estes também são vistos como animais, ou em outras palavras, como parte da natureza. Seria assim uma forma de compreender que toda a criação faz parte de um todo único, e que tal consciência se faz necessária para que o ser humano possa viver em harmonia com o planeta. Lembro aqui de Aílton Krenak (Ideias para adiar o fim do mundo) quando nos diz que o fato do homem ter perdido a capacidade de falar com as matas, com as montanhas e animais, esquecendo-se de que estes são seus parentes, está na raiz da destruição da natureza que hoje põe em risco a própria sobrevivência planetária.

O conhecimento totêmico da parentela entre homens e natureza foi também intuído pela emblemática figura de Francisco de Assis, que tratava tudo o que havia na natureza como irmãos, dando assim voz a uma espécie de totemismo cristão.

Pensemos nos símbolos totêmicos presentes na canção de Barros e Bosco, compreendendo a águia, o urso e a tartaruga em seu aspecto simbólico e arquetípico.

A águia, geralmente posta no topo dos totens, bem como outras aves específicas a cada comunidade, é aquela que vê mais longe e, por isso, possui uma visão do todo espacial. Representaria assim a razão, a estratégia, sendo também um sinônimo de coragem.

O urso é associado na canção à força. As sociedades xamânicas também o associam ao aprendizado (sim, você está pensando em Irmão Urso) e ao senso de maternidade.

A tartaruga costuma estar na base dos totens, uma vez que é um animal cujos pés estão sempre fincados ao chão. Representa a ancestralidade, o conhecimento acumulado ao longo do tempo.

Tais elementos, aparentemente não teriam qualquer relação com a filosofia espírita, uma vez que serão associados, em uma leitura superficial, a religiosidades ditas “primitivas” e portadoras de um fetichismo arraigado nas formas como culturas ancestrais se relacionam com o sagrado. No entanto, esta seria uma conclusão precipitada, errônea e possivelmente preconceituosa.

Tomando a águia, o urso e a tartaruga como ancestrais míticos dos homens, compreendendo-os como figuras arquetípicas, pensemos como eles são apresentados sob a ótica espírita na composição.

Dotada da racionalidade que a visão ampla lhe confere, a águia será representante da fé raciocinada a qual a espiritualidade nos convida. Esta fé gera a confiança de que todas as dificuldades da vida podem ser vencidas, o que dá aos homens a força para prosseguir na caminhada, tal qual um urso que aprende e se fortalece a cada passo. A paciência da tartaruga, firme na base de tudo, pode ser associada às palavras de Paulo de Tarso, que dirá ser a paciência um dos atributos do amor, sempre apontado pelos espíritos superiores como a base e o fundamento de toda a lei divina.

Assim, a composição de que nos ocupamos traduz o caráter universal dos ensinamentos da espiritualidade, presentes em todas as culturas, e finaliza demonstrando que os ensinamentos cristãos, representados pela apropriação que faz de versos do “Pai Nosso”, são uma das faces da relação dos homens com a espiritualidade.

Me ocorre também que, ao dialogar com o totemismo, a dupla Willi de Barros e João Bosco teve como referencial o aspecto do humano como parte da natureza, o que nos leva a representações poéticas dos quatro elementos: o ar representado pela águia; a terra configurada na presença imponente do urso; a água que flui no leito como a tartaruga flui no tempo; o fogo que desce dos céus, o Pentecostes ao qual o “Pai Nosso” evoca.

Glaucio Cardoso

LEIA TAMBÉM:

Flutuar

Cativar

Canção da Alegria Cristã


quinta-feira, 11 de abril de 2024

Você sabe o que você canta? - 03

Analisando músicas espíritas –


Flutuar
(OUÇA)

Grupo Arte Nascente


    É preciso esclarecer que uma análise de um poema, de uma narrativa em prosa ou da letra de uma canção não se propõe a determinar o que “o autor quis dizer” com suas palavras, mas sim em expor e explorar o que aquele texto diz para os leitores, sendo que este dito necessariamente sofrerá mudanças de um leitor para outro. Nesta série de textos sobre algumas das músicas mais difundidas e conhecidas no movimento espírita brasileiro, meu esforço tem sido o de fazer análises que, ainda que calcadas em critérios pessoais, se mostrem como uma possível chave de leitura de cada canção, servindo assim como fundamento teórico para suscitar novas interpretações das canções enfocadas e, ao mesmo tempo, servir como um modelo viável para todo aquele que deseja se debruçar sobre estes objetos artísticos.

É com essa ideia que me acerco de uma canção que tem feito sucesso no movimento espírita há pouco mais de duas décadas e que tive a alegria de ver/ouvir em uma de suas primeiras audições públicas. Trata-se da música “Flutuar”, composição do Grupo Arte Nascente (GO). Existe um ar de simplicidade melódica e letrística que fez com que a mesma se torna-se uma espécie de hit instantâneo, difundindo-se rapidamente no movimento espírita. Vejamos a letra estrofe por estrofe.

Sim, eu vou lembrar

Dessa manhã

Sentir você chegar

Dou todo meu ser

Belo jardim

Pra você brotar

A letra começa pela afirmação de uma espera, a espera por alguém cuja chegada será tão impactante para o eu lírico que permanecerá na memória deste. Dois elementos simbólicos presentes nesta primeira estrofe são relevantes para a leitura que pretendo fazer da canção: a manhã e o jardim.

A manhã nos remete ao (re)começo de algo, pois reforça a ideia da luz que chega e espanta as trevas. É até mesmo uma visão renovada do velho clichê da noite como um símbolo para a obscuridade, a tristeza, a melancolia, espantado pelos raios de uma nova aurora. Essa luz que é indispensável para o crescimento das flores, levando naturalmente à imagem do jardim no qual o interlocutor ao qual o eu lírico se dirige terá espaço para nascer e se desenvolver.

Sei! Você nunca negou

Eu só vou te encontrar aqui

Dentro de mim

Sei! Só quero te dizer

Que o tempo não acabou

Voltei a te buscar

Na segunda estrofe o eu lírico permanece em diálogo com seu interlocutor, o que nos indica que a espera, indicada na primeira estrofe, se concretizou em sua chegada, ainda que esta pareça ser mais metafórica do que concreta, ou antes uma presença ainda virtual e possível, pois o eu se dirige a este outro como se sua presença fosse algo ainda em construção. E tal virtualidade nos leva a fazer a pergunta que provavelmente passa pela cabeça do leitor/ouvinte desde a primeira estrofe: quem o eu lírico aguarda? Minha hipótese de leitura para responder a tal questão passa exatamente por esta estrofe, motivo pelo qual não a mencionei quando pensamos sobre a estrofe anterior.

Os versos dois e três da segunda estrofe dizem que “Eu só vou te encontrar aqui / Dentro de mim”, o que me parece ser a chave de interpretação da música como uma afirmação de um processo de autoconhecimento por parte do eu lírico. Sim, a canção é um diálogo do ser, do eu, consigo mesmo, em um movimento de compreender que o indivíduo precisa acima de tudo vivenciar o amor próprio, a aceitação de si.

A partir do momento em que o indivíduo se (re)conecta com sua essência, está apto a realizar seu potencial de crescimento sob as luzes da nova manhã que chega para iluminar e fertilizar seu jardim interior, que já fora identificado como “todo o meu ser”.

O eu lírico ainda afirma que compreende o quanto demorou para chegar a esse momento, mas que o “tempo não acabou” e ele está de volta para buscar ser quem sempre foi, para realizar todo o seu potencial.

Me faça mais leve

Quero flutuar

No voo da vida

Venha me levar

No momento em que o eu se aceita, ele se liberta da culpa, por isso sente-se mais leve, com a ânsia de flutuar, isto é, de alcançar a realização plena de seu ser transcendente. Assim o eu concretiza o que está exposto na pergunta 919 de O livro dos espíritos e em sua resposta:

Qual o meio prático mais eficaz que tem o homem de se melhorar nesta vida e de resistir à atração do mal?

“Um sábio da antiguidade vo-lo disse: Conhece-te a ti mesmo. [Grifos meus]

Assim, conhecendo-se a partir desse reencontro consigo, o ser humano representado pelo eu lírico da canção do GAN está apto a melhorar seu viver, pois passa a agir de acordo com sua essência original que ficou adormecida até que um amanhecer renovador o despertasse.

Glaucio Cardoso

LEIA TAMBÉM:

Uma Prece

Cativar

Canção da Alegria Cristã

domingo, 10 de março de 2024

Você sabe o que você canta? - 02

 


Você sabe o que você canta?

Analisando músicas espíritas –

Cativar (OUÇA)

Autoria desconhecida


Um dia ainda espero que alguém descubra como uma versão de “Tous les garçons et les files” (da francesa Françoise Hardy, gravada em 1962) se tornou uma das mais populares canções do movimento espírita brasileiro. De autoria desconhecida, a música “Cativar” tem sido presença constante nos encontros espíritas desde que me entendo por gente, ou pelo menos desde 1988, quando comecei a frequentar as reuniões de mocidade e os eventos. Creio não ser exagero dizer que todo espírita brasileiro conhece a singela canção, cuja letra, com algumas nuances de uma gravação para outra, é a seguinte:


Uma palavra tão linda

Já quase esquecida me faz recordar

Contendo sete letrinhas e

Todas juntinhas se ler cativar


Cativar é amar
É também carregar
Um pouquinho da dor
Que alguém tem que levar


Cativou disse alguém
Laços fortes criou
Responsável tu és
Pelo que cativou


Num deserto tão só
Entre homens também
Vou tentar cativar
Viver perto de alguém

Seja lá quem fez a letra, é bastante claro que se trata de uma tradução para a linguagem poética do diálogo entre o Pequeno Príncipe e a Raposa, personagens do inesquecível livro de Antoine de Saint-Exúpèry. Se você é das poucas pessoas no mundo que não leram a obra, pare este texto agora e vá ao livro, depois volte aqui.

No diálogo entre a Raposa e o Principezinho, este convida aquela para brincar, pois estava triste após haver descoberto que sua Rosa, a qual ele considerava uma flor única em todo o universo, era apenas uma rosa comum, igual a milhares de outras rosas existentes na Terra. É quando a Raposa responde:

- Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. não me cativaram ainda.

[…]

- […]. Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?

- É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa "criar laços…"

- Criar laços?

- Exatamente, disse a raposa. Tu não és para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…

Note-se que as estrofes 1 e 3 da canção se encontram inteiras nesse trecho do diálogo, com a explicação de que o ato de cativar é algo antigo, já quase esquecido, e que pode ser entendido pela criação de laços. Mas por que a palavra está esquecida de acordo com a canção? Para compreender, voltemos ao livro.

O Pequeno Príncipe deixou seu planetinha B-612 para instruir-se e tentar assim compreender a dificuldade que tinha em relacionar-se com a Rosa. Em suas viagens pelo espaço antes de chegar à Terra, o menino encontra-se com personagens que representam arquétipos da sociedade humana: o Rei e o Homem de Negócios simbolizam a sociedade mercadológica que se equilibra entra a manutenção do status quo e o lucro com essa condição; o Geógrafo e o Acendedor de Lampiões, ocupados um em catalogar tudo o que existe, o outro em cumprir uma tarefa inútil sem questionar, ambos apartados da vivência real da existência; o Bêbado e o Vaidoso, dois escapistas que negam a realidade pela bebida e pelo culto a si mesmo. No fim das contas, são todos personagens centrados em seus papéis sociais, tanto que não possuem nome, são apenas rótulos, e por isso NÃO CRIAM LAÇOS. Eis o motivo pelo qual a palavra “cativar” é quase esquecida segundo a letra da canção.

A quarta estrofe da música traz à tona um personagem fundamental no livro: a serpente. Embora muitas vezes seja interpretada como símbolo da falsidade, uma figura traiçoeira, é a serpente quem abre os olhos do Pequeno Príncipe para a realidade de que os homens vivem isolados, como nesse trecho:

Onde estão os homens? repetiu enfim o principezinho. A gente está um pouco só no deserto.

- Entre os homens também, disse a serpente.

O que se repete nos versos “Num deserto tão só / Entre homens também”; a linha melódica da canção provoca uma ambiguidade que faz com que os ouvintes entendam que o segundo verso é aqui introdutório do terceiro, quando na realidade é um complemento do primeiro verso. Aliás, este segundo verso aparece por vezes como “Entre homens de bem”, o que parece um tanto incoerente dentro do conjunto da canção, motivo pelo qual descartei essa versão em minhas observações.

Desta forma a letra nos indica que o ato de cativar, de criar laços, é acima de tudo um processo íntimo e pessoal que reverbera no outro. Em outras palavras, ao indivíduo que cativa o outro precisa em primeiro lugar ter aprendido a cativar a sim mesmo, pois assim ele entende a responsabilidade que é entrar na vida de alguém, pois, como dirá a raposa, “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.”, conceito que se encontra em praticamente toda a música.

Ainda sobre a imagem do deserto, não se pode ignorar o papel fundamental que esse lugar possui no livro de Saint-Exúpèry. O Piloto narrador do livro encontra o principezinho no deserto; é no deserto que o menino inicia seu aprendizado com a serpente e é do deserto que ele partirá de volta para casa.

O que torna belo o deserto, disse o principezinho, é que ele esconde um poço nalgum lugar.”

Estar no deserto, ou seja, despido de convenções sociais, em contato consigo e com a imensidão a ser conhecida e preenchida é o caminho para o autoconhecimento e talvez por isso o deserto esteja presente em tantas narrativas da mitologia mundial, incluindo as narrativas cristãs.

Há hoje no movimento espírita uma tendência a rejeitar canções feitas com o aproveitamento de melodias alheias, as chamadas versões. O argumento é de que uma melodia “mundana” ao ser entoada no ambiente espírita poderia levar as pessoas a se lembrarem de momentos e ambientes de desequilíbrio em que as músicas originais foram cantadas, acarretando assim uma quebra do padrão vibratório.

Embora eu entenda e até concorde que isso é possível, não posso deixar de pensar que o inverso também é possível, que podemos associar as letras espíritas de modo indelével à melodia original, a tal ponto que não mais ouviremos “Tous les garçons et les files” sem lembrarmos de uma roda de amigos onde alguém empunha um violão e todos cantamos alegremente que “Cativar é amar...”

Glaucio Cardoso

LEIA TAMBÉM:

Uma Prece

Flutuar

Canção da Alegria Cristã

quinta-feira, 28 de dezembro de 2023

Você sabe o que você canta?

 


Você sabe o que você canta?

Analisando músicas espíritas –

01 - Canção da Alegria Cristã (OUÇA)

Letra: Leopoldo Machado

Música: Oli de Castro


Possivelmente a mais conhecida das músicas espíritas do Brasil, a Canção da Alegria Cristã, composta por Leopoldo Machado (Letra) e Oli de Castro (Música), merece ser estudada para que se lhe compreenda o posto de talvez a mais importante composição musical do movimento espírita, independente da forma que seja cantada.

É preciso começar por uma explicação: não sou um grande entendedor de música, possuindo apenas um conhecimento bastante medíocre dessa linguagem. Entretanto, sou um entusiasta da música espírita e um estudioso da poesia, compreendendo que as duas linguagens se comunicam constantemente, possuindo mesmo uma relação histórica que só há bem pouco tempo viu uma espécie de cisão. Sempre que algum amigo me apresenta uma canção qualquer, meu primeiro gesto é ler atentamente a letra da mesma, a qual compreendo como um tipo especial de poesia.

Explicação feita, vamos ao texto. As letras entre parênteses ao final de cada verso servem para estabelecer o esquema rímico do poema cantado.

Somos companheiros, amigos, irmãos (A)

Que vivem alegres pensando no bem (B)

A nossa alegria é de bons cristãos (A)

Não ofende a Jesus, nem fere a ninguém (B)


A nossa alegria (C)

É bem do Evangelho, (D)

Vibra e contagia (C)

Da criança ao velho. (D)


Mesmo entre perigos, (E)

Daremos as mãos,(A)

Como bons amigos, (E)

Como bons cristãos. (A)


Sempre ombro a ombro, Sempre lado a lado (F)

Vamos trabalhar com muita alegria (C)

Pelo Espiritismo mais cristianizado (F)

Pela implantação da paz e harmonia. (C)


A predominância da primeira pessoa do plural, expressa pelas formas verbais (“Somos”, “Daremos” e “Vamos”) e pelo pronome possessivo (“nossa”), representa a visão de uma religiosidade a um só tempo pessoal e coletiva. Não há a dependência em relação à divindade, como é comum nas religiões conservadoras (em especial no que se tornou o cristianismo de orientação católica e protestante), em consonância com os princípios espíritas que definem o indivíduo como artífice de seu destino. Ao mesmo tempo, a letra de Leopoldo indica a necessidade da colaboração mútua entre as pessoas, o que põe por terra o individualismo narcisista da sociedade na qual vivemos.

Este senso de coletividade é também enfatizado pelas rimas (A): “irmãos/cristãos”; “mãos/cristãos”. Note-se que a repetição da palavra “cristãos” expressa a ideia de fraternidade e união que o autor considera indissociáveis do real cristianismo, no qual os irmãos caminham sempre de mãos dadas, conceito que será retomado na última estrofe iniciada pelo verso “Sempre ombro a ombro, sempre lado a lado”. Há ainda que se ressaltar que para o autor da canção tal vivência religiosa de união e fraternidade não faz distinção de idade, pois “Vibra e contagia / da criança ao velho”.

Outro elemento presente na canção é o sentido de alegria, a qual se encontra expressa diretamente em quatro versos (2º, 3º, 5º e 14º), além do título, o que pode ser lido como um gesto de ruptura que merece ser desenvolvido.

Historicamente, as casas espíritas no Brasil reproduziam o comportamento oriundo dos meios católicos de conservarem os ambientes religiosos dentro de uma esfera de recolhimento que descambava invariavelmente para a morbidez. A herança dos cultos romanos dotou o cristianismo institucional de um sentimento trágico que se reflete em frases como “Cristo morreu por nós”, “somos todos devedores de Deus”, “não somos dignos” e outras que subjugam o homem a uma condição de eterna tristeza disfarçada de humildade. Este era também o panorama das instituições espíritas na primeira metade do século XX (e em algumas ainda hoje).

Neste sentido, a Canção da Alegria Cristã pode ser lida como uma música de protesto contra tal mentalidade que tanto incomodava seu autor. Em outros textos, Leopoldo Machado chegava a dizer que as casas espíritas deveriam deixar de ser câmaras mortuárias e deixar-se impregnar de “muita alegria! Que essa coisa de tristeza e casmurrice não é de quem segue aquele que disse ‘Alegrai-vos que é chegado o Reino de Deus!’”. Neste sentido, a ruptura da canção reproduz a ruptura que o próprio Espiritismo promoveu no século anterior em relação ao conservadorismo religioso.

Cabe aqui uma curiosidade sobre a letra em foco que serve para demonstrar a capacidade criativa de seu autor. Segundo Clóvis Ramos1, o que viria a ser a canção mais conhecida do movimento espírita era originalmente um poema escrito por Leopoldo para a campanha em prol da construção do Lar de Maria (Macaé-RJ), cujo 4º verso da 2ª estrofe era “Pela construção do Lar de Maria” e que foi alterado para “Pela implantação da paz e harmonia”. Uma mudança pequena, mas que conferiu ao poema um caráter de universalidade ausente na forma original, que o levaria a ser escolhido como Hino da Mocidade Espírita do Brasil durante o Congresso Brasileiro de Mocidades Espíritas (1948)2.

Sendo talvez a primeira música espírita a divulgar a proposta do Espiritismo de Vivos que seu autor defendia, difundida em todo o país com as mais variadas versões e arranjos musicais, a Canção da Alegria Cristã atravessa o tempo sem jamais deixar de ser atual, espalhando que a real vivência do Evangelho de caráter universalista (que “Não ofende a Jesus, nem fere a ninguém”) é indissociável da união e da alegria, pilares que levam à construção de um mundo de paz e de harmonia.

Glaucio Cardoso

1In: Leopoldo Machado – Ideias e ideais. Rio de Janeiro: CELD, 1995.

2RAMOS, Clóvis. Primavera que desponta. Rio de Janeiro: Letras Espíritas, 1970.

LEIA TAMBÉM:

Uma Prece

Flutuar

Cativar