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terça-feira, 27 de agosto de 2024

Jesus na minha casa


 Acho que vou mudar os móveis de lugar,

Pra deixar a sala mais arejada.


Acho que vou lavar os banheiros

pra deixar tudo perfumado.


Acho melhor trocar os lençóis e as toalhas.

Acho uma receita nova

de um prato especial.

Acho um lugar perfeito pra uma rede

e pra soneca da tarde.


É preciso deixar toda a casa pronta

pra chegada de Jesus.


Mas Jesus não pode ser visita!

Jesus tem que ser de casa,

daqueles que abrem a geladeira,

se servem de suco.


Jesus tem que me dizer bom dia,

boa tarde,

boa noite.

Mais do que qualquer sofá

é ele quem me dá conforto,

sacia a fome,

refresca a alma,

embala o sono.

Não precisa de luxo,

nem de excesso,

só do essencial.


Então acho que não vou

me preocupar com móveis,

pratos

ou toalhas.


Acho que vou arrumar meus pensamentos.


Acho que vou cuidar da minha fala.


Acho boa ideia abrir as portas da morada interior

e dizer de peito aberto

e dizer de alma liberta:

Seja bem-vindo, Jesus!

Glaucio Cardoso

03/12/2020

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

Quem nunca


Eu nunca fiz terapia,

mas já apareci três vezes na televisão,

e isso me faz sentir

que existo para além de mim.


Eu nunca me suicidei,

mas já dei fim à minha vida

três vezes.

A primeira quando saí de casa,

a segunda quando me separei,

a terceira quando fui pai.


Eu nunca saí do país,

mas já perdi a conta

de quantas vezes

dei a volta ao mundo.


Eu nunca saberei quando a morte chegará,

mas desde que me fiz poeta

a eternidade me acompanha.


Glaucio Cardoso

22/02/19

segunda-feira, 21 de agosto de 2023

Intui ação

 


Que voz é essa que chega sem aviso?

Esse sopro que não tem origem,

mas que parece vir de tão perto

ainda que distante…

Mais do que acalanto,

esse convite ao despertar

leva o medo lá pra longe.


Em tua ação de ser-razão

não feche o sentir pro que te guia.

Intui ação no gesto,

no canto,

na palavra.


Em tua ação te crias

e te crês construtor do teu porvir.

Intui ação que há de vir

cedo ou sempre

no processo criador que se faz

em teu bailar,

em teu cantar,

em teu sorrir,

em teu viver,

em teu ser,

em tua ação.


Glaucio Cardoso

27/08/2021

Poema especialmente escrito para o 18º FECEF (Festival da Canção e Encontro de Arte Espírita de Franca), previsto para 2022, mas adiado para 2023, cujo tema é “A intuição, o ser e a arte”.


quinta-feira, 17 de novembro de 2022

Era


Era antigo

Como antigos são os sonhos

Que esqueceram de acordar.

Como as flores

Que secaram

Em um livro

Que ninguém mais folheou.


Era antigo

Como antigos são retratos

Que o tempo desbotou.

Como diários

Esquecidos

Que ninguém mais quer ler.


E era eterno

Como eternas são certas canções,

Como as palavras do profeta,

Como o amor que não se amou.


E era tudo,

E era nada,

E era tanto que acabou,

Tal qual lenda,

Tal qual mito,

Que a memória preservou.


Cavaleiro que galopa

Num corcel de sonho e cor

Assim sou eu e é você:

Personagens de uma história

Que se esquece de acabar.

Glaucio Cardoso

Abril/2018

quinta-feira, 23 de junho de 2022

O espelho

 


Sou amigo de ideias

pouco exploradas;

talhado na mais simples

madeira sem lei.


Persigo incômodos,

prefiro os lugares incomuns,

aqueles mal estofados

onde ninguém quer sentar.

Por isso muitas vezes sou só,

só um sujeito pensante,

só um sujeito errante,

só num instante

em busca de um sextante

que me oriente

até EU destino.


Sou contra modismos,

contra superficialidades,

acho até que vivo contra o vento

só pra ele me fazer girar

feito o brinquedo de minha infância.


E por isso muitas vezes sou só,

como um personagem perdido num palco

sem ator que me anime.


E mesmo assim

sou feliz.

Pois nesta inadequação

realizo o desejo

de ser mais que apenas

igual ao que esperam que eu seja.

Glaucio Cardoso

22/06/22

sábado, 29 de maio de 2021

Despedidas

 



Não existe jeito fácil pra uma despedida.

Acenos de mão são sempre dolorosos

e todo aquele que parte

leva um pouco de quem fica.


Com quem parte

vão-se todos os dias não vividos,

os sorrisos ainda por sorrir…


Quem parte leva os abraços

que ainda queríamos trocar,

leva os sonhos não realizados,

leva todos os aniversários não celebrados

e os feriados sem viajar.


Mas quem parte também sempre deixa algo

naqueles que ficam:

deixa lembranças

felizes,

tristes,

engraçadas,

comuns,

lembranças que são vida!

Deixa as palavras

de ternura,

de amor

e de amizade,

palavras ditas

e caladas,

exemplos, sorrisos e afagos

tão naturais que nem se notava.


Quem parte deixa sementes

a ser cultivadas por quem fica.

Tudo o que fica e tudo que se vai

fazem parte da mesma saudade

e da mesma presença.


Glaucio Cardoso

2021


segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Andando



Viajante de mil caminhos,
Perdido em meus próprios passos,
Sem nunca saber,
Sem nunca chegar,
Cem mim quilômetros
Distante de tudo.

Meio do caminho
É nome bonito
Pra onde a gente está
Sem saber como e onde chegar...
Glaucio Cardoso

segunda-feira, 8 de julho de 2019

Reflexão



Pensar é mergulhar em si,
Poder se conhecer melhor,
Encarar seus temores,
Refletir suas dores
E procurar a paz.

Servir é praticar a fé,
Burilar a pedra bruta da alma,
Transformar palavra em doação,
Para esquecer de si mesmo
No exercício de amar.

Não basta só orar!
Não basta vigiar!
É urgente produzir,
É preciso caminhar...
Glaucio Cardoso
08/04/2016

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

De passagem



Quando meus olhos se abriram
e pude encarar meu próprio rosto
com a cabeça tombando para o lado,
percebi que algo de mim estava morto.
Houve gritos e exclamações,
choros e lamentos
e as vozes dos que me amavam
bradando meu nome;
mas não havia o que responder,
pois o que eles viam de mim
já não era eu,
pois o que eles viam de mim
já não era meu;
ali, onde julgavam ver a mim,
não era onde eu realmente estava.
Pairei por algum tempo
entre o sonho e o delírio,
sem ter exata noção
de mim mesmo.
Houve saudades,
houve preces,
missas foram encomendadas
e cantos foram entoados;
e tantos foram os que me receberam
quanto os que não queriam me deixar partir.
Mas a caminhada era somente minha,
e por isso eu precisava me encontrar
em meio às minhas próprias dúvidas.
Ah, Senhor! Mostra-me o caminho,
que andar é minha sina
pra chegar mais junto a Ti.
Glaucio Cardoso
28/09/15

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Kadima



Adeus,
vou partir.
Deixo um beijo
em cada coração,
um abraço, um sorriso,
um aperto de mão.

Adeus,
não posso mais.
Meu prazo findou,
meu tempo chegou
e saio de fininho.

Adeus,
de ninguém me esqueço,
a nada me apego.
Ao lembrarem de mim
não me deem defeitos
que não tive,
nem virtudes que não mereço.

Adeus,
parto tranquilo.
se não fiz tudo o que podia,
ao menos aprendi
com tudo que fiz.

Adeus,
quase nada levo,
só os erros e acertos
que formam meu tesouro
que a traça não destrói.

Adeus,
não chorem demais,
estarei logo em paz.
Entrego meu corpo à terra,
entrego minhas palavras ao mundo,
e minha alma, neste momento de adeus,
entrego sereno a Deus!
Glaucio Cardoso
02/11/2015
Dia de finados


Kadima: “[seguir] em frente” (Hebraico).

segunda-feira, 1 de outubro de 2018

Se alguém me perguntar por onde andei



Se alguém me perguntar por onde andei,
Dos momentos bons que eu passei,
Eu vou dizer que tudo foi normal.

Mas se você quiser toda a verdade,
Eu sinto que vivi pela metade,
Feito confete sem um carnaval.

E para aliviar esse cansaço,
Eu só preciso mesmo é de um abraço
Que me devolva pra de onde eu vim.

Ainda tenho muito a caminhar,
E o que não é meu não vou levar,
Eu tenho um horizonte só pra mim.

E seja para trás ou para frente,
Cada passo é um e é diferente,
O caminho é que define o que se é.

E enquanto houver um rumo pra seguir,
Tem tempo pra chorar e pra sorrir,
Num dia diz-se “alô”, no outro “até”...
Glaucio Cardoso
05/08/18

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

Quando eu morrer quero ficar



Quando eu morrer quero ficar,
Não contem ao Mário de Andrade,
Mas quero ficar insepulto.
Não posso contentar-me
Com o sono eterno dos justos,
Nem com a estúpida contemplação
Do paraíso, seja lá que nome possam lhe dar.

Quero ficar insepulto
Na mais fina acepção do termo,
Pois que apenas poderão
Enterrar-me o corpo,
Essa massa ignorante.

Quero ficar de boca em boca,
Quero permanecer de um jeito
Mais transcendental que fantasmagórico.

Não quero a morte brônzea das estátuas,
Mas a vida incessante das ideias.

Então contem a todos, menos ao Mário de Andrade,
Que quando eu morrer quero ficar.
Glaucio Cardoso
22/09/16

quinta-feira, 5 de julho de 2018

terça-feira, 9 de janeiro de 2018

Ciclos da vida


Vai o sol,
Vem a lua,
Tudo passa,
Tudo muda.

Vem o dia,
Surge a aurora,
Recomeço sempre inédito,
Retorno do que nunca foi,
Momento de despertar
Para a tarefa de sempre.

Cai a tarde,
Surge a noite,
Estrelas que já se foram,
Lembrando da real eternidade,
Tempo de repouso,
Tempo de pensar no já feito.

Vem o sol,
Vai a lua,
De novo e de novo
A nos contar
Que tudo era uma vez...

                                   Glaucio Cardoso

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Deus


Obrigado, Senhor!
Pelas constelações,
Pela chuva que cai,
Pelo sol, pelo ar.

Obrigado, Senhor!
Pelas águas infindas,
Pelas noites sublimes,
Pela luz do luar.

Obrigado, Senhor!
Pelos olhos de ver,
Pelo amor pra sentir,
Pelo dom de cantar!
                                   Glaucio Cardoso



domingo, 17 de setembro de 2017

Por ser amor


O sol, o céu, o mar,
Tudo o que existe entre o nada
E o infinito,
São presentes do Criador
A nos demonstrar seu puro afeto.

As provações que nos afligem
São como nuvens passageiras
Que por mais que se demorem
Sempre dão lugar à luz.

É por ser amor
Que Deus nos deu a chuva e a aurora.

É por ser amor
Que salpicou o infinito de estrelas
Que cantam sua glória.

É por ser amor
Que Ele acredita em cada filho seu.

É por ser amor
que espalhou a beleza que nos habita.

É por ser amor
Que Deus criou você!
Glaucio Cardoso
Inspirado na música homônima de Aldo Motelevicz
31/08/17