quinta-feira, 6 de fevereiro de 2020

Contradições



Penso que o avião,
Seja lá quem o inventou,
Talvez seja a mais poética das máquinas.
Toda aquela bruta materialidade de aço,
Cabos,
Combustível,
Luzes
Se combinam em uma forma
Ao mesmo tempo bela e poderosa,
Verdadeiro objeto barroco
Composto por contrastes.
Toda a força de motores e turbinas
Empregada para elevar os homens
Até o mais etéreo dos lugares,
Onde nos vemos tão pequenos
Que bem passaríamos por insetos.
Ainda assim,
O homem é egoísta o bastante
Para olhar pela janela
E dizer que eles, os outros,
É que parecem formiguinhas.
Do alto, nossa perspectiva é outra,
Embora teimemos em continuar os mesmos.
Do alto, somos todos insignificantes,
Mas ainda buscamos dar significado
Ao nosso existir.
É do alto, enfim, que podemos entender
A dura verdade
De que somos
Todos passageiros.
Glaucio Cardoso
25/05/19
A caminho de Florianópolis para uma oficina de poesia na sede do NEA.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

Não escreverei um poema de Natal



Não escreverei um poema de Natal...
Todos os poetas escrevem poemas de Natal...
Ou
Muitos poetas escrevem poemas de Natal...
Ou
Alguns poetas escrevem poemas de Natal.
Por isso não tenho vontade
De escrever poemas de Natal.
Todo poema de Natal
Parece dizer as mesmas coisas
Embora dizendo diferente.
É a infância metafórica,
É o aniversariante esquecido,
É o trocar presentes por estar presente
E é lugar-comum que não acaba mais.
Eu queria mesmo
É que abolissem essas datas,
Quem sabe assim
Se eliminam as falsas congratulações,
As hipocrisias e as ternuras de ocasião.
Eu queria mesmo
É que não houvesse tempo certo
Para pensar no que é certo,
Que não houvesse mais
Fraternidade com hora marcada,
Nem oração regada a álcool.
E para não ver o Cristo
Resumido a uma farta mesa
Paga com sacrifício e desperdício,
Para não ser parte
Da limitação do sentimento,
Para não compactuar
Com a desumanização do Sagrado,
Só por isso,
Eu não escreverei um poema de Natal.
Glaucio Cardoso
22/12/2019

terça-feira, 3 de dezembro de 2019

Desafogo



Já fui pisado,
espancado,
injustiçado.
Já me fizeram sentir
que não tinha espaço.
Já me fizeram chorar,
Já me fizeram sofrer,
Já tentaram me fazer
desacreditar de mim mesmo.
Mas há um ponto de mim
que jamais foi alcançado
por aqueles de alma pútrida,
um espaço pequeno,
mas que guarda
o que tenho de mais precioso:
minha honra,
que não me permite
render-me à hipocrisia,
que não me faz buscar
soluções fáceis,
que me impulsiona a seguir
mesmo quando todos
apontam-me com seus dedos em riste
esquecidos dos três que lhes
apontam de volta.
Glaucio Cardoso
13/12/15

segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Serra do Vulcão


As montanhas da minha terra
Escondem coisas que nem sei se são reais.
Da minha varanda eu vejo,
A meio caminho do topo,
Uma casinha que sei
Há muito inabitada.
Tenho dúvidas se ela está
Realmente vazia,
Pois não serão poucas as lembranças
Nem raros os fantasmas que a ocupam.
Religiosos insistem
Em chamar a mais próxima de monte,
Querendo com isso
Dar-lhe um sentido talvez bíblico
Que compense o distanciamento
Existente entre os cristãos
E a vivência do Cristo.
Sei que em algum lugar
Por entre as montanhas da minha terra
Existe uma cachoeira
Onde os deuses de meus ancestrais
Encontram repouso.
Sei também, que lá existem
As ruínas de uma senzala,
Onde tantos dos meus avós
Clamaram em dor e desespero
E onde hoje só habita o silêncio.
Mas o que mais se oculta ali
É o vulcão adormecido
Que dá nome à serra de minha terra.
Quem sabe, ele não esteja esperando
Que nós, habitantes do pé da montanha,
Entremos em uma erupção
Que sacuda os falsos alicerces
Nos quais tanto nos acomodamos.
Quem sabe, um dia,
O vulcão concluirá
Que já esperou demais.
Glaucio Cardoso
17/10/2019 – 1h21m

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

FLOF - Festa Literária da Oficina



Uma das melhores coisas dessa vida de poeta é estar com as pessoas, com aquelas que amam a literatura como um todo.