Desde que me entendo por leitor, há um gênero de histórias que me chama particular atenção: as distopias.
Para os pouco familiarizados com o gênero, basta dizer que distopias são narrativas futuristas que geralmente apresentam a opressão dos povo por governos autoritários ou que mostram uma sociedade decadente em decorrência da configuração social do momento em que tais obras são escritas. Servem como alerta, mas a prova do tempo pode dotá-las de um caráter profético.
Li algumas das principais obras do gênero: 1984, Admirável mundo novo, Farenheit 451, Um cântico para Leibowitz, Tropas estelares, Um estranho numa terra estranha, e até algumas bem mais recentes, como a trilogia Jogos vorazes.
E agora me deparei com O dorminhoco (The Sleeper awakes), de H. G. Wells, e eis que sou surpreendido por uma distopia pouquíssimo comentada, para não dizer completamente ignorada.
A história é simples: um britânico do século XIX, Graham, após uma semana de insônia, adormece profundamente e só acorda depois de 203 anos, descobrindo, para sua surpresa, que é o proprietário de metade do planeta. E mais: ao longo dos dois séculos em que permanecera em um estado de sono próximo à não-vida, Graham se tornara uma espécie de Messias aguardado por uma sociedade cujo ditado, “Quando o Dorminhoco acordar”, era sussurrado com uma prece de esperança, com a certeza de que ele mudaria toda a situação na qual o povo se encontrava.
Quando publicou a primeira versão de sua narrativa (ele teria ficado insatisfeito com o final, publicando uma versão revista e definitiva em 1910), Wells não era um iniciante no gênero distópico, já tendo publicado, em 1895, sua mais famosa obra: A máquina do tempo. Sim, embora a história do viajante temporal seja mais conhecida como ficção científica, ela é também uma narrativa distópica (explico porque em outro momento).
Em O dorminhoco, o futuro que se apresenta a Graham é o de uma sociedade na qual a “empresa” substituiu os governos, a democracia é considerada um erro do passado. Há massas inumeráveis de trabalhadores que trocam seus dias de trabalho por alimentação. Não há o espaço privado, tudo pertence à empresa e àqueles que a gerenciam em nome do Dorminhoco.
Embora inferior às outras obras do autor, é impossível não notar como seus ecos alcançam as distopias que marcaram o século XX, como aquelas que eu mesmo já mencionei.
O final do livro é um tanto abrupto, e há alguns trechos bastante irregulares, mas ao pensarmos que este livro foi escrito há mais de cem anos, e fazendo a comparação da sociedade encontrada por Graham com a nossa, somos levados a constatar o porquê de distopias serem tão perturbadoras quando, escritas como ficção no passado, parecem concretizar-se no presente.
Só nos resta esperar que as coisas mudem quando o dorminhoco acordar.
Glaucio Cardoso
19/02/2026

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