sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Canis benedictus

 

Deus te abençoe, irmão cão,

pela forma de amar

sem expectativa.

Pela sensibilidade sobre

os seus humanos.


Deus abençoe esse teu jeito

de receber nosso cansaço

no fim de cada dia.


Bendito seja esse teu olhar

que busca entender como estamos

e que pleno de ternura

parece nos dizer

“estou aqui.”


Deus abençoe teus sons…

de alerta,

de atenção,

de afago,

de presença.

Que mesmo em silêncio

e sem falar tanto diz

com um simples inclinar de cabeça.


Deus te abençoe,

cão adjetivo,

de raça,

de caça,

cão guia,

cão de casa,

cão na rua.


E sendo tu bendito,

perdoa a nós humanos

que mesmo sabendo o que fazemos,

não fazemos o que sabemos.


Glaucio Cardoso

10/02/2026


quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

Quando o Dorminhoco acordar


Desde que me entendo por leitor, há um gênero de histórias que me chama particular atenção: as distopias. 

Para os pouco familiarizados com o gênero, basta dizer que distopias são narrativas futuristas que geralmente apresentam a opressão dos povo por governos autoritários ou que mostram uma sociedade decadente em decorrência da configuração social do momento em que tais obras são escritas. Servem como alerta, mas a prova do tempo pode dotá-las de um caráter profético.

Li algumas das principais obras do gênero: 1984, Admirável mundo novo, Farenheit 451, Um cântico para Leibowitz, Tropas estelares, Um estranho numa terra estranha, e até algumas bem mais recentes, como a trilogia Jogos vorazes.

E agora me deparei com O dorminhoco (The Sleeper awakes), de H. G. Wells, e eis que sou surpreendido por uma distopia pouquíssimo comentada, para não dizer completamente ignorada.

A história é simples: um britânico do século XIX, Graham, após uma semana de insônia, adormece profundamente e só acorda depois de 203 anos, descobrindo, para sua surpresa, que é o proprietário de metade do planeta. E mais: ao longo dos dois séculos em que permanecera em um estado de sono próximo à não-vida, Graham se tornara uma espécie de Messias aguardado por uma sociedade cujo ditado, “Quando o Dorminhoco acordar”, era sussurrado com uma prece de esperança, com a certeza de que ele mudaria toda a situação na qual o povo se encontrava.

Quando publicou a primeira versão de sua narrativa (ele teria ficado insatisfeito com o final, publicando uma versão revista e definitiva em 1910), Wells não era um iniciante no gênero distópico, já tendo publicado, em 1895, sua mais famosa obra: A máquina do tempo. Sim, embora a história do viajante temporal seja mais conhecida como ficção científica, ela é também uma narrativa distópica (explico porque em outro momento).

Em O dorminhoco, o futuro que se apresenta a Graham é o de uma sociedade na qual a “empresa” substituiu os governos, a democracia é considerada um erro do passado. Há massas inumeráveis de trabalhadores que trocam seus dias de trabalho por alimentação. Não há o espaço privado, tudo pertence à empresa e àqueles que a gerenciam em nome do Dorminhoco.

Embora inferior às outras obras do autor, é impossível não notar como seus ecos alcançam as distopias que marcaram o século XX, como aquelas que eu mesmo já mencionei.

O final do livro é um tanto abrupto, e há alguns trechos bastante irregulares, mas ao pensarmos que este livro foi escrito há mais de cem anos, e fazendo a comparação da sociedade encontrada por Graham com a nossa, somos levados a constatar o porquê de distopias serem tão perturbadoras quando, escritas como ficção no passado, parecem concretizar-se no presente. 

Só nos resta esperar que as coisas mudem quando o dorminhoco acordar.


Glaucio Cardoso

19/02/2026